terça-feira, 29 de novembro de 2016

OUTONO

Entrou no outono da vida
com os receios de uma criança,
que acaba de descobrir o fascínio de andar.
Eram tantas as mudanças que via
tantas as outras que antevia
tantos os medos,
tantos os Ses
tantas as descobertas,
que aprendeu a desejar conhecer aquele novo Eu.
Era o corpo que se arredondava
e reclamava, insurrecto, espaço e visibilidade.
Era o desejo,
que meticuloso se adensava em mistérios e exigências,
mandão,
soberano.
Era a volúpia dos sentidos,
nos gestos e na gratidão
mas também no pragmatismo de uma nova missão.
Mas era sobretudo aquela bebedeira de ternura
que lhe escorria pelos dedos,
como mel em fio sobre torradas,
ante o espanto no olhar que a fitava.
Aprendeu a gostar daquela languidez,
tranquila e sedutora como um gato ao sol,
e como isso lhe alimentava o sorriso
e a esperança.
Um dia,
deu consigo a pensar
que talvez,
apenas talvez....
o outono da vida,
pudesse afinal ser primavera.
©Graça Costa