domingo, 17 de setembro de 2017

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
imagem da web


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

PEDAÇOS D'ALMA

Olho-me no espelho e vejo o cansaço, a dor, o desalento.

No corpo, as cicatrizes,
os sinais da luta inglória e insane,
em busca de um melhor amanhã que tarda em chegar.


Procuro no olhar, a esperança,
nas mãos estendidas, o recado silencioso,
o resgate de um abraço,
alimento para o dia que começa.
Assim me visto de crepúsculo e chama,
de candura e lama
de ousadia, fome e fantasia.


Oleira de mim,
construo o que as mãos permitem
e a pele aceita
sabendo que a obra visível
e a sonhada, sentida,
raramente são comparáveis.


Aquilo que para uns será sol,
para outros será nevoeiro, vento e maresia.

Vejo-me a cores, a grafitte ou a pastel.
Como me vêm os outros?
Não sei…
Não sei se quero saber.

Sou como sou...
Ainda que ferida, 
guardo a beleza da dor
e o esplendor da dádiva,

ofereço a candura do abraço
e a plenitude do ser.

Assim sou…
Inteira,
porque não sei ser de outro modo.

Assim me dou...
A quem tiver Alma para me sentir.

©Graça Costa



 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

QUIETLY

Quietly
by the paths of illusion you took me.

Of lightness dressed.
I danced with the breeze.
Among the water lilies and foliage I floated,
as in calm afternoon breeze.

Quietly
I reinvented the magic of rebirth
at every step,
every look,
every kiss,
every moonlight.

Touch me, love ...
and cover my body with your lips of amazement.

Let the hunger for affection
become autumnal melody
and lets make from the dance of bodies
boldness,
tenderness,
passion
unnamed follies
new life,
exhaustion.

After ...
may sleep come to take care of our dreams...
Quietly...


©Graça Costa
photo: me...

 

COMO NO POEMA


Beijo-te no poema,

onde as palavras perfumam carícias,

onde posso sou espuma ou brisa,

ou espanto,

ou medo,

e porque sei que estás aí

para abraçar a minha alma inquieta.

 

Beijo-te no poema e na carne,

na candura das palavras,

e na pele em brasa,

na loucura dos afectos

e na quietude da tarde.

 

Beijo-te no poema e nos sentidos,

porque no beijo te encontro,

todo entrega,

todo ternura,

todo em mim,

e no beijo te soletro

a ti,

parte de mim

embrulhada em letras.

 

©Graça Costa
imagem da web
 
 

 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

MELANCOLIA DOS DIAS

Na melancolia das palavras
desenho o horizonte
de um futuro ainda por inventar.

Num golpe de asa,
entre sorrisos, lágrimas, abraços e porquês,
caminho com o sol na ponta dos pés
a brisa na pele,
sonhos no olhar
e um coração imenso,
aberto ao mar dos afetos.

Até lá...
vivo tacteando o medo
moldando a dor
mordendo a esperança de te ter
e,
em cada ruga,
em cada beijo,
em cada lágrima,
sinto-me crescer
por entre os fragmentos do dia.

©Graça Costa
imagem da web

 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

PINCELADAS DE AGOSTO

Trago na pele
pinceladas de Agosto
tatuadas pelos teus dedos .

Na boca,
o sabor a Maio
e paisagens de Outono a dançar-me nos olhos.

Moldados pela brisa
passeiam-me pela face
sorrisos rasgado de memórias.

Dos sonhos com travo a canela,
guardo a textura dos dias passados enleada nos teus braços,
quando o futuro era uma tela em branco
e a vida,
um diálogo sem palavras de corpos cansados.

Trago na pele pinceladas de Agosto,
carregadas de ternura e melodias de água fresca.

Bagagem doce num jardim sem tempo.
Brisa serena na trova do vento que passa.


©Graça Costa



 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

SOU DE UM LUGAR DIFERENTE


Sou de um lugar diferente.

Não sei dizer onde fica

nem sei dizer o seu nome.

Sei apenas que não sou daqui.

 

Tenho na pele

afectos que não conheço

e no olhar a gratidão

de olhos que ainda não vi.

 

Sou de um lugar diferente.

Não sei se melhor, mas diferente.

De um lugar

onde o amor tem voz

e a saudade não mente,

onde as portas do carinho têm dedos

aveludados com brisa de verão,

doces como beijos ao entardecer.

 

Sou de um lugar diferente

mas não sei como lá chegar.

Por isso o construo de raiz

poro a poro

lágrima a lágrima

toque a toque

e te convido a entrar.

 

Sou de um lugar diferente…

de gente com coração dentro.

 

©Graça Costa
 
 

 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

ONDE A SOLIDÃO TERMINA

Deixaste-me na boca um sabor a espanto,

e na pele a súplica do desejo inacabado,
a fome de mais,
que o dia levou.

Deixaste-me no olhar um sopro de maré viva,
uma tempestade de afectos incontidos
clamando pela noite,
ou apenas pelo som dos teus passos na escuridão.

O dia passa,
lento e soturno
mas dentro de mim bate o sol.

Com lábios de silêncio
e o paraíso no olhar,
deixo o fogo envolver-me
na espera do tanto que te quero.

No horizonte o dia cai,
deixando no ar promessas guardadas
do ontem que não chegou a ser.

Espero-te,
para que me abraces onde a solidão termina,
e me envolvas no rendilhado dos dias sonhados
antes do amanhecer.


©Graça Costa
imagem : Jagannath Paul

















quinta-feira, 17 de agosto de 2017

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
imagem da web



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

TELL ME


Tell me how to bear
the absence of what I didn't have, but already felt?
 
How to silence the bruised skin pain
of another sunset without you?
 
Tell me that yesterday was mirage
and tomorrow will be courage.
 
Tell me fear has no color
and luck has no hurry.
 
Tell me that you will come
that I'll wait
In the curve of the afternoon,
or on the edge of dawn
where do you choose
wherever you want me
I'll wait.
 
Tell me …
and I'll leave the words
crumble on a soft gasp,
In a slight sob
like wave kissing the sand,
and I will stay there
until the turn of the tide
bring your fingers
to my skin.
 

© Graça Costa