sábado, 9 de junho de 2018

ESCUTA

Escuta.
Mergulha no silêncio e escuta o corpo que te fala.

Ouve o clamor da pele,
e a toada triste das suas cicatrizes
quando lhes afagas o contorno da dor.

Ousa e ouve também a sua fome,
os seus desejos,
e a alquimia dos sentidos que a pele reclama.

Embrenha-te no silêncio da noite
e ouve como ela,
ora chora, ora canta
ora implora, ora dá,
no embalo de melodias por inventar.

Sem pressas,
observa cada curva,
cada poro,
cada marca.

Sente a dança dos sentidos
e deixa-te ser pele de outra pele.

Ouve e ousa
ser dona do seu sentir,
fundir-te na sua pele,
murmurar-lhe desejos de equinócios distantes,
enlouquecer de ternura,
explodir de prazer no seu ouvido.

Deixa-me explorar o limite do sentir
devagar,
serenamente,
como quem declama um poema soletrado a meia voz.

Murmúrios da pele,
sede….
desafio,
banquete de almas unidas
pela bebedeira de sentidos inquietos.

©Graça Costa


segunda-feira, 4 de junho de 2018

SE ESTES DEDOS TIVESSEM VOZ


 Se estes dedos tivessem voz
 seria de vento e de mar,
 seria de brisa e de trautear o teu corpo,
 com gemidos de mel
 e ternura de flores sem tempo nem estação.

 Se estes dedos tivessem voz
 suplicariam por violinos, harpas,
 e lençóis de cetim orvalhados pelo teu perfume.
 Suplicariam por pinceis e aguarelas para te pintar o perfil
 e nele gravar o sentir do amanhecer nos teus braços.

 Se estes dedos tivessem voz
 gritariam pela tua presença dentro de mim,
 pelo teu olhar preso no meu,
 navegante eterno de paraísos inventados
 e rotas por descobrir.

 Se estes dedos tivessem voz
 o amanhã estaria escrito.
 O entardecer teria a melodia de uma sinfonia tocada a quatro mãos
 e a noite traria consigo a magia dos rios
 plena de afectos e desafios,
 aberta para nos receber.

Caminhemos então…
e ouçamos,
que os dedos falam a língua dos amantes .


©Graça Costa
imagem da web
 

 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

PRECISO DE TEMPO

Preciso de tempo para te construir dentro de mim.
Preciso de tempo para colorir a esperança.

De ti,
recebi as tintas
com as cores da paixão
e as tonalidades do amor sem tempo.

  Recebi, também os pincéis,
dedos em forma de ternura
trazendo luz e calor
à escuridão dos dias incertos.

Agora...
agora preciso de tempo.
Tenho este corpo tela
suplicante de vida,
gemendo a dor da tua ausência.
Tenho também as memórias
das carícias prenhes de cor e fantasia.

Preciso de tempo
para te construir dentro de mim,
e depois deixar fluir o amor
que um encontro improvável tornou certeza,
ternura,
porto seguro,
paixão
eternamente inacabada
pelas nossas mãos.

©Graça Costa

CREPÚSCULO

Carregava o crepúsculo no olhar,
quase fardo,
quase dor,...
quase esperança.


Como numa melodia de saudade,
sussurrava palavras de silêncio
envoltas em lágrimas,
e seu corpo ondulava
como numa quase perfeita
imagem de oração.

Ela carregava o crepúsculo no olhar
mas, quando sentiu o apelo da noite,
deixou o corpo flutuar
como uma pena ao sabor da corrente.

Deslizou para o colo daquele anjo,
com os braços de ternura e pele de cetim
e ali ficou, saboreando o dia que adormecia.

Cansaço.
Era tanto cansaço,
que as estrelas brilharam mais forte,
apenas para lhe iluminar o sono.


©Graça Costa
imagem da web


 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

VOU

Com a poeira da espera
enfrentei o corpo nu transcendente de afectos.

Que amante é esta
que o amante espera em súplica,
quase prece.

Que viver é este
prenhe de desejo,
alma na voz
e pele em chamas.

Aguardo,
com o corpo raiado de estrelas em dor
e o olhar crivado de esperança
pelo entardecer que me mereça.

No fio da noite
a brisa impele-me o voo.

Não sei se fique se ouse.
Lá longe sinto o ritmo compassado de ti,
que num sussurro hipnótico me chama.

Tremo na antecipação de te ter,
e de sorriso em riste,
vou ...

©Graça Costa
imagem da web


 

RECEITA PARA UMA VIDA ROUBADA


Um dia roubaram-me a vida e eu não percebi.
 Entrei no hipnótico caminho da dor
 com a leveza de uma bailarina em pontas,
 sem ver que, com o passar dos dias,
 os pés, tal como a vida começavam a sangrar.

Depois, parei e pensei :
 um dia esta dor ainda me vai ser útil
 e deixei-a engrossar, como torrente de lava encosta abaixo.

No desamparo do silêncio das noites em branco,
 alimentei a ira e o desencanto;
 derramei as lágrimas caladas durante os dias que corriam velozes,
 como velozes nasciam as marcas no rosto e os fios de prata no cabelo.

Depois, um dia cresci.
 Libertei a ira e resgatei do fundo de mim o efémero sentir dos humanos.
 Despertei do torpor de uma alma esfiampada
 e lenta mas persistentemente
 lancei-me na reconstrução de mim.

 Hoje, sou barro moldado por mãos hábeis, serenas e ternas.
 Na plasticidade dos dias,
 cresço e renasço com cada janela de esperança que abro.
 Junto-lhes alguma estravagância guardada no ventre da saudade,
 adiciono uma pitada de desejo,
 e deles retiro
 o meu pão,
 o meu mel,
 o sal com que tempero o tempo que resta.

©Graça Costa
imagem da web


quinta-feira, 12 de abril de 2018

NA PONTA DOS DEDOS


Acordei com as mãos entrelaçadas nas tuas
e parei de respirar só para te sentir.

Nesse encontro de pele e alma
senti a magia de um amanhecer sem pressas
e deixei-me levar pelo embalo da brisa que lá fora batia o compasso do dia.

Das tuas mãos nasceu a descoberta do encontro,
a vibração emergente da paixão
visível no delicado tatear da pele,
na subtileza do toque,
no gemido terno,
na fome do beijo,
no previsível êxtase.

Tudo bebi,
com a calma do amanhecer
e descobri que por vezes,
o amor começa…
na ponta dos dedos.

©Graça Costa
desenho - Amadeo de Souza Cardoso
 
 

 

 

terça-feira, 10 de abril de 2018

DONT GIVE UP


Dont give up dreaming your dreamings

even if someone tells you

dreams are colorful

and yours are colourless.

Dont give up.

Shades of grey can be beautiful

black and white

make beautiful shadow canvas

and your dreams are just as great as everyones elses

Because they are

your dreams.

Don’t give up…

Keep on…

Battles are tough

Days can be rough

but theres always a flower

bursting from a rock.

It might be you.

 
©Graça Costa
Image - Kitty Jujube
 


SONHOS ROUBADOS

O dia acordou sinuoso e inquieto.

Pairava no ar um quê de mistério
e o horizonte trazia nos dedos
promessas de ternura,
em gomos de romã
e ramos de violetas.
 
Havia no ar uma serenidade etérea,
como se aquele dia trouxesse no rosto,
a magia de sonhos roubados.
 
Nos olhos, o espanto
pela profusão de aromas e sons que vinham de longe,
mas que pareciam sair de dentro de si.
 
Depressa percebeu que o seu tempo
e o seu corpo se haviam fundido naquele dia,
em que a primavera nascia
calma e serena por entre a maresia.
 
Fechou os olhos e sorriu 
ao sentir o raio de sol que lhe inundava o rosto.
 
Mordeu os lábios com sabor de romã,
vestiu-se de violetas
e esperou.

Distintamente ouviu o silêncio dos teus passos.

Vinhas a caminho,
para reinventar o sonho roubado,
e ela esperou.
Esperou e sorriu
porque para ela , tu eras
o horizonte da esperança
que ao longe nascia.
 
©Graça Costa
imagem da web
 
 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

MANHÃ DE PRIMAVERA

Como o dia está tão feio, deixo-vos um aroma primaveril em jeito de poema, com desejos de bom dia.

No amanhecer que desponta,...
sou pássaro livre
sou fonte
sorriso aberto
espuma do vento.

Sou tudo isso
e o que mais queiras.

Por ti acordo,
contigo me deito,
desejo na pele,
ternura no olhar.

No amanhecer que desponta
navego, serena como espuma do mar
e na fluidez dos sentidos
deixo-me enamorar pela maresia,
dos teus dedos na minha pele.

Fecho os olhos e sinto o teu toque.

Deleite dos fins de tarde
em que flutuamos rumo ao anoitecer
que por ora apenas é sonho.

Ferve-me a pele e sorrio…

Antecipação do prazer,
numa manhã de primavera.

©Graça Costa
imagem da web