quarta-feira, 9 de maio de 2018

VOU

Com a poeira da espera
enfrentei o corpo nu transcendente de afectos.

Que amante é esta
que o amante espera em súplica,
quase prece.

Que viver é este
prenhe de desejo,
alma na voz
e pele em chamas.

Aguardo,
com o corpo raiado de estrelas em dor
e o olhar crivado de esperança
pelo entardecer que me mereça.

No fio da noite
a brisa impele-me o voo.

Não sei se fique se ouse.
Lá longe sinto o ritmo compassado de ti,
que num sussurro hipnótico me chama.

Tremo na antecipação de te ter,
e de sorriso em riste,
vou ...

©Graça Costa
imagem da web


 

RECEITA PARA UMA VIDA ROUBADA


Um dia roubaram-me a vida e eu não percebi.
 Entrei no hipnótico caminho da dor
 com a leveza de uma bailarina em pontas,
 sem ver que, com o passar dos dias,
 os pés, tal como a vida começavam a sangrar.

Depois, parei e pensei :
 um dia esta dor ainda me vai ser útil
 e deixei-a engrossar, como torrente de lava encosta abaixo.

No desamparo do silêncio das noites em branco,
 alimentei a ira e o desencanto;
 derramei as lágrimas caladas durante os dias que corriam velozes,
 como velozes nasciam as marcas no rosto e os fios de prata no cabelo.

Depois, um dia cresci.
 Libertei a ira e resgatei do fundo de mim o efémero sentir dos humanos.
 Despertei do torpor de uma alma esfiampada
 e lenta mas persistentemente
 lancei-me na reconstrução de mim.

 Hoje, sou barro moldado por mãos hábeis, serenas e ternas.
 Na plasticidade dos dias,
 cresço e renasço com cada janela de esperança que abro.
 Junto-lhes alguma estravagância guardada no ventre da saudade,
 adiciono uma pitada de desejo,
 e deles retiro
 o meu pão,
 o meu mel,
 o sal com que tempero o tempo que resta.

©Graça Costa
imagem da web


quinta-feira, 12 de abril de 2018

NA PONTA DOS DEDOS


Acordei com as mãos entrelaçadas nas tuas
e parei de respirar só para te sentir.

Nesse encontro de pele e alma
senti a magia de um amanhecer sem pressas
e deixei-me levar pelo embalo da brisa que lá fora batia o compasso do dia.

Das tuas mãos nasceu a descoberta do encontro,
a vibração emergente da paixão
visível no delicado tatear da pele,
na subtileza do toque,
no gemido terno,
na fome do beijo,
no previsível êxtase.

Tudo bebi,
com a calma do amanhecer
e descobri que por vezes,
o amor começa…
na ponta dos dedos.

©Graça Costa
desenho - Amadeo de Souza Cardoso
 
 

 

 

terça-feira, 10 de abril de 2018

DONT GIVE UP


Dont give up dreaming your dreamings

even if someone tells you

dreams are colorful

and yours are colourless.

Dont give up.

Shades of grey can be beautiful

black and white

make beautiful shadow canvas

and your dreams are just as great as everyones elses

Because they are

your dreams.

Don’t give up…

Keep on…

Battles are tough

Days can be rough

but theres always a flower

bursting from a rock.

It might be you.

 
©Graça Costa
Image - Kitty Jujube
 


SONHOS ROUBADOS

O dia acordou sinuoso e inquieto.

Pairava no ar um quê de mistério
e o horizonte trazia nos dedos
promessas de ternura,
em gomos de romã
e ramos de violetas.
 
Havia no ar uma serenidade etérea,
como se aquele dia trouxesse no rosto,
a magia de sonhos roubados.
 
Nos olhos, o espanto
pela profusão de aromas e sons que vinham de longe,
mas que pareciam sair de dentro de si.
 
Depressa percebeu que o seu tempo
e o seu corpo se haviam fundido naquele dia,
em que a primavera nascia
calma e serena por entre a maresia.
 
Fechou os olhos e sorriu 
ao sentir o raio de sol que lhe inundava o rosto.
 
Mordeu os lábios com sabor de romã,
vestiu-se de violetas
e esperou.

Distintamente ouviu o silêncio dos teus passos.

Vinhas a caminho,
para reinventar o sonho roubado,
e ela esperou.
Esperou e sorriu
porque para ela , tu eras
o horizonte da esperança
que ao longe nascia.
 
©Graça Costa
imagem da web
 
 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

MANHÃ DE PRIMAVERA

Como o dia está tão feio, deixo-vos um aroma primaveril em jeito de poema, com desejos de bom dia.

No amanhecer que desponta,...
sou pássaro livre
sou fonte
sorriso aberto
espuma do vento.

Sou tudo isso
e o que mais queiras.

Por ti acordo,
contigo me deito,
desejo na pele,
ternura no olhar.

No amanhecer que desponta
navego, serena como espuma do mar
e na fluidez dos sentidos
deixo-me enamorar pela maresia,
dos teus dedos na minha pele.

Fecho os olhos e sinto o teu toque.

Deleite dos fins de tarde
em que flutuamos rumo ao anoitecer
que por ora apenas é sonho.

Ferve-me a pele e sorrio…

Antecipação do prazer,
numa manhã de primavera.

©Graça Costa
imagem da web
 
 

terça-feira, 3 de abril de 2018

NOS BRAÇOS DA MADRUGADA

Embriagada de insónia
enamorei-me da madrugada.

Pedi-lhe uma manhã clara,
com raios de sol vibrantes
salpicados de brisa
e aroma de mar.

Pedi-lhe também o calor do teu corpo,
a ternura do abraço,
o cheiro da pele molhada,
pela textura do beijo,
o som cálido e quente da tua voz.

Enrosquei-me na tua ausência
que de tão presente se fez dor,
deixei que as lágrimas lavassem a saudade
e deixei-me levar …

O sono venceu a batalha dos sentidos.
Exausta,
adormeci nos braços da madrugada
e neles te revisitei.

Desse dia feito noite,
guardo os sonhos que inventei
e os ecos de ti que no olhar gravei.

Tesouros d´alma,
aromas de infinito,
alquimia de sentidos,
guardados na pele
e no mar dos sonhos,
agora calmos.


©Graça Costa
imagem da web
 

 

 

 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

PARAÍSO

Via contornos de paraíso
naquele corpo nu espelhado na aurora...

Promessas adiadas de dança poema.

Visão profética do lamento feito prazer,
que antecede o verbo.

©Graça Costa
imagem da web

 

COMO DA PRIMEIRA VEZ

Olhou-o e sentiu
a aura cálida do amor
a penetrar-lhe a pele,...
como se o estivesse a ver pela primeira vez.


Terna a lembrança
daquilo que foi.
Sereno o desejo
daquilo que ainda podia vir a ser.

Olhou-o
e a pele falou
como se pintada pelos dedos da paixão,
sibilando aromas de terra e mar,
revelando segredos partilhados
na fusão dos corpos
ao amanhecer.

Olhou-o
e agradeceu o acaso do destino,
aquele segundo de eternidade
em que o coração se inquietou,
perante a imensidão
do amor que nascia.

©Graça Costa


 

domingo, 25 de março de 2018

CONVERSANDO COM O SILÊNCIO

Existe no silêncio
um luar de nuvens mansas
uma alma secreta
de murmúrios vestida.
uma doçura tamanha,
que só de o prever já me embalo
no seu sentir.

Só quem conversa com o silêncio
tem alma para sentir o poema
que antes de o ser já dança na retina,
penetra a pele com a intensidade de um beijo
e desperta a fome
do amor vivido em firmamentos distantes.

Oxalá a noite me doure os sentidos,
me crave na pele a vontade de me dar
e que o canto da minha voz,
não seja voz
mas pele…
sedenta de outra pele.


©Graça Costa
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