terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SAUDADE


Imersa em silêncio e sombra espero por ti.
Sentada nas memórias da dor, tento sufocar a tua ausência,
espero que recordes o meu perfume
e que ele te conduza até mim na escuridão da noite.

Imersa no silêncio rogo que me encontres.
que ainda te lembres do caminho,
que o teu corpo se abandone ao torpor dos passos
e o instinto da fome te conduza  à lembrança
dos dias em que vinhas de sorriso aberto
e sede nos olhos.

Saudades…
do calor do teu abraço,
dos beijos entrecortados de lágrimas e gemidos,
dos dias noites e das noites dia
das horas que passavam em segundos
e dos segundos que pareciam a eternidade.

Imersa no silêncio da noite, espero.
Espero, mas não desespero,
porque sei que um dia virás
e se hoje o destino não te trouxer de volta a mim,
tenho tudo o que vivi,
e o que vivi foi tanto !!!


©Graça Costa
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SE ESTES DEDOS TIVESSEM VOZ

Se estes dedos tivessem voz
seria de vento e de mar,
seria de brisa e de trautear o teu corpo,
com gemidos de mel
 e ternura de flores sem tempo nem estação.

Se estes dedos tivessem voz
suplicariam por violinos, harpas,
e lençóis de cetim orvalhados pelo teu perfume.
Suplicariam por pinceis e aguarelas para te pintar o perfil
e nele gravar o sentir do amanhecer nos teus braços.

Se estes dedos tivessem voz
gritariam pela tua presença dentro de mim,
pelo teu olhar preso no meu,
navegante eterno de paraísos inventados
e rotas por descobrir.

Se estes dedos tivessem voz
o amanhã estaria escrito.

O entardecer teria a melodia de uma sinfonia tocada a quatro mãos
e a noite traria consigo a magia dos rios
plena de afectos e desafios,
aberta para nos receber.

Caminhemos então…
e ouçamos,
que os dedos falam a língua dos amantes .


© Graça Costa
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
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WAITING

The sea breeze whispered me your name.
I blushed like a vestal untouched.

Remembered your last words
a long time ago :
I’ll be back , you said
I’ll be back to your embrace
and I’ll fill your body with the scent of my windy lips.

Since then
the wind has been my silent lover
my friend
the witness of this unfulfilled pain.

Still…
I keep waiting
and tonight  the sea breeze whispered me your name
and so I wait …
the waiting is bittersweet
as a strawberry in early spring.

Nevertheless …
I smile.
  

©Graça Costa
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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

AQUI


Aqui estou,
no que ficou depois de ti,
enroscada no lamento da esperança
que morreu antes de ser mar.

Aqui estou,
com a sede à flor da pele
e a fome escondida na razão que já não é.

História por escrever mas já sonhada,
por viver mas já sentida,
aguarelada na aurora desflorando a madrugada.

Aqui estou,
nesta travessia de mim,
em busca do nós que já fomos
e do amanhã que inventamos
em cada amanhecer.

Aqui estou,
pedaço de mim em espera,
suspensa,
antecipando a magia do toque
da tua
na minha pele.


©Graça Costa 

SINTO


Sinto a poesia a nascer-me na pele,
a iluminar-me o olhar ,
a queimar-me o sentir.

Sinto o poema
desflorando a madrugada rumo aos meus dedos,
com a alma
o suor
e o sangue
de um alfabeto por inventar.

Emoções e afectos,
palavras, ora quentes e serenas
ora lamentos , gemidos
quase prece,
quase dor
envolvem-me os dedos e o olhar.

Sinto a poesia a crescer-me na pele.
Toco-a ao de leve
e torno-a minha.
Salpico-a com o meu perfume de amante inquieta
e de alma aberta,
partimos ambas ao encontro dos dias,
por ora, apenas sonhados.


©Graça Costa


sábado, 10 de dezembro de 2016

NA MINHA PELE

Bebe-me o néctar da vida
e perde-te na minha pele.

Deixa que o desejo seja chão
da paixão o do enredo
de uma peça em dois actos
de começos e recomeços.

Perde-te em mim
para que eu sinta que sou o teu mel,
ou a tinta
com que pintas no meu corpo
 as palavras de um poema por inventar.

Que ele nasça
em forma de dança lenta
de corpos,
dedos
e olhares perdidos na escuridão.

Que venha com a maré dos sentidos
e se torne sonho,
prenúncio de abandono
da tua
na minha pele.


©Graça Costa
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DÁDIVA

Bom quando o sorriso se solta dos lábios
e voa directo aos teus olhos.
Bom quando o beijo ganha asas
e mesmo ao de leve
consegue arrancar-te, arrepio d’alma.
Bom quando do toque da pele nasce o rendilhado da paixão,
da brisa,
a canção,
do raio de sol
a fusão dos corpos
quentes e suados como monções.
Bela a troca de olhares
que todas as línguas entendem.
Belas as palavras sussurradas ao luar,
cúmplices de noites eternas,
penetrando a aurora.
Contigo,
a suave textura do amanhecer
tem brilho de diamante
e odor de vida acabada de florir.
Contigo sou mar e chama
harmonia,
temperança,
flor do campo
luz de luar.
Contigo,
contemplo os dias
em que a saudade descansa
e visto-me de maresia
apenas para te ver sorrir.
©Graça Costa
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

DIZ-ME


Diz-me como suportar
a ausência do que não tive, mas já senti ?

Como calar a dor trilhada na pele
qual pauta inacabada
de mais um pôr de sol sem ti ?

Diz-me que o ontem foi miragem
e o amanhã será coragem.

Diz-me que o medo não tem cor
e que a sorte não tem pressa.

Diz-me que virás
que eu espero
na curva do fim da tarde,
ou na orla do amanhecer
onde te faça sentido,
onde me queiras,
eu espero.

Diz-me …
E eu deixarei as palavras
desfazerem-se num suave arquejo,
num soluçar ligeiro
como onda beijando a areia,
e ali ficarei
até que a mudança da maré
traga os teus dedos...
até à minha pele.


©Graça Costa

                                                                       Walter Girotto


CAVALGANDO O DIA

Hoje o dia acordou com o sol na voz,
o esplendor dos aromas outonais
e a ousadia das promessas por cumprir.
Serviu-me gomos de magia
envoltos em doce de aroma
e despertou-me a fome
de ter a tua pele
na minha pele.
Cavalguei o dia e voei com ele
sacudindo o medo de ser abatida em pleno voo
e a amargura das horas que passo sem ti.
Não sei o que fazer a esta urgência de amar
a este doce recordar
sem nome nem idade
mas a que chamo saudade.
A tarde vai caindo
terna e sonolenta como um abraço.
Observo-a com o brilho nos olhos
para iluminar a noite
e o caminho
que te traga até mim.
Temos promessas por cumprir…

© Graça Costa
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MY BODY

My body,
white page in your hands,
kiss to uncertain lips,
sometimes gentle,
sometimes urgent.

My body,
of a sweet texture,
cotton,
linen,
satin,
challenge I offer you,
fully,
for you to lose
and find yourself.

My body,
yours,
for you to enjoy,
to flavour,
to feed you,
and feed me.

Indulge my hunger of needing you,
and bind on my skin,
the urgency of new beginnings

© Graça Costa
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ROTA DO SONHO

Percorre-me o corpo como se fosse mar
e toca-me a alma como se fosses brisa.

Desperta-me os sentidos e torna-me tua.
Bebe-me.
Saboreia-me.

Entranha-me na tua pele
e nessa mescla do tudo e do nada
de excessos e devaneios,
façamos da noite uma melodia de afectos
lânguida e suave como o amor que termina e recomeça,
como maré
sem cessar.

E quando o cansaço for maior que o desejo
saibamos morrer…
entrelaçados,
exaustos pelo prazer vivido e pelo que há-de vir
quando o brilho do olhar
voltar a incendiar-nos a pele.

©Graça Costa
imagem da web



PRECISO DE TEMPO

Preciso de tempo para te construir dentro de mim.
Preciso de tempo para colorir a esperança.
De ti,
recebi as tintas
com as cores da paixão
e as tonalidades do amor sem tempo,
recebi os pincéis,
dedos em forma de amor
trazendo luz e calor
à escuridão dos dias incertos.
Agora...
agora preciso de tempo.
Tenho este corpo tela
suplicante de vida,
gemendo a dor e maresia da tua ausência.
Tenho também as memórias das carícias prenhes de cor e fantasia.
Apenas preciso de tempo
para te construir dentro de mim,
e depois deixar fluir o amor
de um encontro improvável que se tornou certeza,
ternura,
porto seguro,
paixão
eternamente inacabada
pelas nossas mãos.
©Graça Costa
foto : Eu



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ESCUTA


Escuta.
Mergulha no silêncio e escuta o corpo que te fala.

Ouve o clamor da pele,
e a toada triste das suas cicatrizes
quando lhes afagas o contorno da dor.

Ousa e ouve também a sua fome,
os seus desejos,
e a alquimia dos sentidos que a pele reclama.

Embrenha-te no silêncio da noite
e ouve como ela,
ora chora, ora canta
ora implora, ora dá,
no embalo de melodias por inventar.

Sem pressas,
observa cada curva,
cada poro,
cada marca.

Sente a dança dos sentidos
e deixa-te ser pele de outra pele.

Ouve e ousa
ser dona do seu sentir,
fundir-te na sua pele,
murmurar-lhe desejos de equinócios distantes,
enlouquecer de ternura,
explodir de prazer no seu ouvido.

Deixa-me explorar o limite do sentir
devagar,
serenamente,
como quem declama um poema soletrado a meia voz.

Murmúrios da pele,
sede….
desafio,
banquete de almas unidas
pela bebedeira de sentidos inquietos.

©Graça Costa
imagem : Loui Jover


O QUASE

Incomoda-me o Quase,
a sua inconsistência,
a sua fraqueza, a forma inquieta como se esconde,
o que podia ter sido e não foi.

Incomoda-me o Quase.
Quase fui.
Quase fiz.
Quase consegui.
Quase amei.

Que quase é este que nos tolhe o sentir,
e me rouba a plenitude do Querer.

Incomoda-me o Quase
e por quase me sufocar
descarto-o do meu sentir.

Quero a plenitude do todo,
o excesso da entrega,
a loucura do desejo,
a quase morte do êxtase.

Quero, não ter medo de sentir
não ter medo de ousar
ter alma e corpo e pele
para ser e para dar.

Incomoda-me o Quase...
Quase, não é suficiente .


©Graça Costa