quinta-feira, 30 de junho de 2016

O ANÚNCIO DA PRIMAVERA

Hoje saí de casa
como em tantas outras vezes.
Saí com o sol no olhar,
a brisa na pele e a ternura nos ombros.
Saí porque o dia me chamava
com um ronronar felino pleno de promessas.

Dei comigo na beira do rio contemplando as margens,
as nuances de luz
e as cores do casario reflectido nas águas.

Dei comigo aspirando o aroma da primavera ainda imberbe,
mas tão cheia de expectativas,
e paixões ardentes
como papoilas beijando a beira dos caminhos.

Hoje saí de casa como saio tantas outras vezes,
mas não era eu que caminhava.

Era o corpo que me levava à descoberta da tarde.

E o corpo tinha magia,
voz de tenor ,
contornos de harpa,
aroma de campos silvestres,
e o valsear de corpos em fusão lenta.

Neste assombro me encontro,
prenhe de primavera
sorrindo ao fim de tarde que me escorre dos dedos.

Ao fundo,
o secreto fascínio da lua
com a sua nudez ,
sensual ,
insinuante,
temperamental,
inconstante,
leve e densa como a noite que lhe precede.

Hoje sai de casa como saio tanta outras vezes
e regresso
com a magia da noite entranhada nos sentidos.


©Graça Costa