quinta-feira, 6 de agosto de 2015

VEM

Sede,
fonte,
rio,
ponte,
mar,
tormenta,
fúria,
lamento.

O que sou,
nos dias em que o mar dos olhos 
me desaba no peito?

O que me diz este olhar de mão estendida?
O que me diz o coração apertado e a pele em chamas?

Vem..
preciso de colo.

Enlaça-te em mim,
sacia-me a sede,
alimenta-me o Ser

e fica...
meu farol,
minha alma, meu guia,
meu chão.

©Graça Costa


                                                              Hesther Van Doornum



CORPO EM ESPERA


Trago na pele
pinceladas de Agosto
tatuadas pelos teus beijos .

Na boca,
o sabor a Maio
e paisagens de Outono a brotar-me dos olhos.

Moldados pela brisa
passeiam-me pelo rosto
sorrisos rasgado de memórias.

Dos sonhos com travo a canela,
guardo a textura dos dias enleada nos teus braços,
quando o futuro era uma tela em branco
e a vida,
um diálogo sem palavras de corpos cansados.

Trago na pele
pinceladas de Agosto
e a saudade dos dias à espera de ser vividos
quando o vento  me soprar o teu nome
e a pele vibrar num arrepio de alma.

Corpo em espera ,
tela virgem,
antecipação de prazer,
maré viva,
furação,
feita melodia de verão.


©Graça Costa


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

NO SILÊNCIO

Existe no silêncio
uma serenata de nuvens mansas
uma alma secreta de murmúrios vestida
uma doçura tamanha,
que só de o prever
já me embalo no seu sentir.

Só quem conversa com o silêncio
tem alma para sentir o poema
que antes de o ser já dança na retina
já penetra a pele com a intensidade de um beijo
e desperta a fome do amor vivido em firmamentos distantes.

Oxalá a noite me doure os sentidos,
me crave na pele a vontade de me dar
e que o canto da minha voz,
não seja voz,
mas pele…
sedenta de outra pele.


©Graça Costa

                                                             Mark Demsteader 

ACROSS THE MIST

From across the mist
I drink your profile,
serene and mild as autumn breeze,
warm and soft as sleepy sun,
careless,
mischievous,
escaping on the horizon.

From across the mist
I drink your profile
and in my drunkenness of you
I dream...



©Graça Costa

                                                                      Cesar Biojo

FLUTUANDO

Flutuo na melancolia dos dias incertos,
no misterioso encanto da procura
e descanso no teu colo
quando a fadiga me invade o corpo e o olhar.

Flutuo na melancolia dos dias incertos.
Procuro no outono da vida
a serenidade do trigo ondulando na brisa.
Liberto-me e sorrio de peito aberto
à doçura da brisa beijando o mar ao amanhecer.

De novo procuro a aurora boreal dos sentidos.

Visto-me de luz e mel,
soletro melodias de tempos distantes ,
derreto-me no teu corpo
e renasço em cada entardecer.


© Graça Costa




MEU FAROL

Tem dias em que o vento me sopra na pele o calor da tua voz.
Entoa cânticos serenos,
como sereno o teu toque
liberto de mágoas e dores,
quase magia,
brisa sem chão.

Nesses dias quero que venhas
e me tornes  prisioneira dos teus lábios.

Vem e envolve-me na noite que desperta,
sê meu farol,
meu guia
de caminhos incertos
escondidos na maresia.

Vem, que o frio aperta
e a fome tem o teu nome
escrito na coberta.


©Graça Costa

                                                        Nelina Trubach-Moshnikova

terça-feira, 4 de agosto de 2015

DANÇA LENTA

Apetece-me dançar.
Uma dança lenta como o amor em dias de paz.
Uma dança terna como violetas ondulando na maré verde da planície.
Uma dança suave como beijo que emerge das profundezas do ser.
Uma dança quente como o olhar cúmplice dos amantes.

Apetece-me ser tua.
Entregar-me à voragem da fome que queima por dentro,
que humedece os lábios, seca a garganta e incendeia o olhar.

Apetece-me viver,
com a intensidade de quem sabe que o amanhã pode não chegar,
mas com a calma de quem saboreia cada olhar, cada toque, cada beijo
como se de obras de arte se tratassem.

Apetece-me dançar.
Soltar as rédeas da imaginação,
libertar as amarras do sentir
olhar a nudez e sorrir.

Descobri que só nua de mim
me encontro verdadeiramente comigo e me descubro.
Talvez insegura,
talvez amedrontada
talvez ousada,
talvez inquieta, curiosa,
ou até mesmo vaidosa,
mas seguramente mais inteira.

Visceralmente… Eu.

Apetece-me dançar.
E vou…


©Graça Costa


A NASCER-ME NA PELE

Sinto a poesia a nascer-me na pele,
a iluminar-me o olhar ,
a queimar-me o sentir.

Sinto o poema
desflorando a madrugada rumo aos meus dedos,
com a alma
o suor
e o sangue
de um alfabeto por inventar.

Emoções e afectos,
palavras, ora quentes e serenas
ora lamentos , gemidos
quase prece,
quase dor
envolvem-me os dedos e o olhar.

Sinto a poesia a crescer-me na pele.
Toco-a ao de leve
e torno-a minha.
Salpico-a com o meu perfume de amante inquieta
e de alma aberta,
partimos ambas ao encontro dos dias,
por ora, apenas sonhados.

©Graça Costa


                                                                 Rachelle Panagarry.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

SEM AVISO

Quase sem aviso
o beijo aconteceu.

Como poema sem voz
cresceu lentamente,
maré mansa,
que vira fogo
ateado pela urgência do desejo.

Perdido na ponta do medo surgiu assustado
mas logo se agigantou,
explorando os sentidos
com mestria de escultor
e delicadeza de tela pintada a pastel.

Colou-me na pele pigmentos carmim,
sugou-me a alma e o sentir,
tornou-me amante insuspeita
de dias calmos e noites errantes
em que apenas o desejo tem voz.

Do beijo nasceu a entrega
e da entrega, a melodia dos corpos em chama...
poema vivo,
salpicado por gotas de mar,
em tons de êxtase .

© Graça Costa

                                                            François Henri Galland

SABOR DA VIDA

Saboreio a vida como fruta madura.
Fresca, morna, quente
consoante a vontade,
o momento,
o desejo,
o querer.

Mordo-a com a languidez de um sono leve
silencioso,
sussurrante,
ou com o arrebatamento
de uma maré viva.

Mergulho no oceano agridoce do viver,
e refaço a magia da entrega.

Como esquiço em cavalete, redesenho o amor
numa alquimia perfeita de sons , aromas e sabores.

Saboreio o amor
como saboreio a vida.

Orvalhado ou solarengo
salgado, doce ou mesclado
em sucessivas viagens de eternos recomeços.

Neles…
me perco e encontro,
vestida de outono,
despida de mim.

Saboreio a vida
como saboreio o amor…
Fruta madura acabada de colher.

Alimento ou guloseima
partilhada naquela ténue dimensão
em que o amor deixa de ser palavra
e passa a ser magia,
milagre,
ousadia,
paixão.




©Graça Costa

                                                                      Agnes Cecile