segunda-feira, 6 de julho de 2015

PROFÉTICO

Profético,
o sopro poderoso da fome
serpenteia-me o corpo envolto na bruma,
lacónico,
esfíngico,
quase prece
quase súplica.

Numa emergência de afectos por saciar,
procuro no teu olhar
a promessa da abundância
neste meu corpo feito terra lavrada em espera.

Profético,
o Inverno de sementeiras
feitas pela tua mão.

Profética,
a linguagem universal do Amor,
quando arrancada das profundezas do SER.

Esteio do caos.
Esplendor da vida
que começa a chegar ao amanhã.

©Graça Costa 

                                                                   Danny o'Connor

domingo, 5 de julho de 2015

CORPO EM ESPERA

Surgiu-me da penumbra uma sensação de luz,
um calor terno e manso
de  lábios lambendo-me o rosto.

Iluminou-se-me  a alma
e um sorriso insinuou-se-me no olhar.

Depois foram os dedos.

Como brisa de verão,
ainda com aroma a fim de primavera,
viraram carícia nua,
repleta de magia e de promessas.

Um silêncio mágico invadiu a manhã.

O meu corpo virou pauta de musica inacabada
pintado pela paleta da aurora.

Corpo expectante,
luminoso,
ardente
deitado na penumbra do dia que amanhecia,
sedento dos teus dedos,
sedento de ti...


© Graça Costa


ANDA

Anda…
Vamos inventar um caminho novo,
desenhado  a pastel ou aguarela
melodia ou primavera,
doce e mágico como beijos roubados,
nas colinas do sonhos e da imaginação.

Anda…
dá-me a tua mão.
Deixa-me guiar-te neste mundo inventado
em que o corpo ganha voz
e a voz ganha magia e sedução.

No teu olhar sinto a urgência das marés,
o marulhar dos afectos, 
a fome por saciar.

Nas palavras por dizer,
pressinto  trilogias
escritas em noites frias de inverno
ao som do crepitar  das chamas,
ou ao som do vento
um tango
ou um bolero.

Pressinto a madrugada,
e assim fico …quieta e nua,

presa no limbo de poemas
sussurrados ao ouvido do amanhecer.

©Graça Costa


sábado, 4 de julho de 2015

O BEIJO

Gosto do beijo que ainda não dei,,,
do beijo imaginado,
desenhado nos contornos da mente.

Sinto-lhe o cheiro e o sabor,
a textura, o calor.

Insinuante o beijo que não dei.

Mágico,
como tudo o que é sonho
ainda por nascer.

©Graça Costa






sexta-feira, 3 de julho de 2015

A CURVA DO FIM DA TARDE

Esperei por ti na curva da tarde
como por ti esperou a fome do sentir.

Imaginei-te a romper a neblina
lentamente, em slow motion,
saboreando cada passo que te trazia até mim.

Fechei os olhos e centrei-me nos sons,
no restolho que quebrava debaixo dos teus pés.

Mais  perto,
cada vez mais perto.
Não via , mas sentia o teu olhar preso no meu corpo
libertando-o de tudo o que te separava da minha pele.
E a pele sorria,
e o olhar vibrava
e o corpo gemia no silencio da estrada.

Por fim senti-te chegar...
resposta à suplica muda que te pedia o olhar.

Arrepio de alma na curva do fim da tarde.
Deitei-me no teu colo
e pedi ao vento para nos ensinar a voar.


©Graça Costa


                                                                 Charmaine Olivia

A QUE SABE O AMOR ?


A que sabe o amor acabado de fazer?
E o acabado de sentir?
Ou o que morreu mas já foi chama?

A que sabe ?

Sabe a pétalas de estrelas
pontilhadas de açúcar,
pimenta e canela.

Sabe ao almiscarado da pele suada,
ao suspiro que morre lentamente na garganta
após o prazer partilhado.

Sabe a pão acabado de cozer
com manteiga derretida.

Sabe a vida vivida
quebrada,
partida,
sabe a dor
sabe a partilha
sabe a mel e a maresia.

Não sei se sei 
a que sabe o amor acabado de fazer,
mas sei que sei de cor
a imensidão do que sinto na pele,
quando me tocas.

©Graça Costa

                                                          Maria Morales; Oil, 2010




quinta-feira, 2 de julho de 2015

ÉPICO

Seda,
cetim,
veludo,
 brocado,
 marfim.

Não sei como dizer a tua pele.

Esse mar onde me perco e me encontro,
onde me invento e descanso.

Essa pele que me fala,
mansa e docemente numa língua por inventar
mas que me entende e responde
com a languidez do olhar.

Não sei como dizer o teu aroma de jardim silvestre,
mar revolto,
terra lavrada,
oriente mágico,
quase alucinante.

Não sei…
Mas sinto o épico desta sensação
de poder saborear-te
sem  ter que te dar um nome.


©Graça  Costa 


RENASCER

Espartanas, as gotas de orvalho acariciavam-lhe o rosto
antecipando um solarengo dia de outono.
Contudo sua alma estava negra
como negro estava o futuro,
como negra a mão que lhe oprimia as palavras.

Palavras dolorosas e doentes,
que lhe dançavam enfurecidas nos horizontes da memória
e na fonte dos sonhos.

Sentiu-se insegura,
quase patética,
numa fragilidade infantil
em que não se reconhecia.

Como pérolas
ou mesmo  diamantes
recolheu as gotas de orvalho,
uma a uma,
quase a medo
e ante aquela pureza vestal
ousou criar a alquimia da vida.

Juntou o sal dos olhos ao sussurro da alma aflita,
mais o grito  de quem está a parir um pequeno deus
ao qual juntou um outro grito de esperança.

Juntou ao olhar e aos sentidos a paleta de cores do universo
e junto ao lago,
agora feito mar,
largou, o negro
como quem larga uma capa usada  e gasta pelo tempo e pela dor.

Envergou apenas a subtil beleza da nudez acabada de parir
e encontrou a razão…
a razão de ser,
a razão de estar ali,
a razão de ser quem era.

E porque a razão tinha razão…
deu a si mesma a oportunidade de renascer.

Mergulhou naquele mar
salgado como a vida,
doce como um beijo,
revolto como a paixão,
misterioso como o milagre
do ritmo sereno das marés
e navegou…
usando a rota do sonho
plantada no interior de si.


©Graça Costa




quarta-feira, 1 de julho de 2015

COISA BOA

Coisa boa, flutuar no teu abraço
ao som de um noturno morno
com embalo de espanto
e carícia de lamento.

Coisa boa o teu toque,
como raio de sol timidamente
beijando a nuvem cheia de lágrimas,
com receio de a rasgar.

Coisa boa, morrer e renascer de novo,
em cada olhar
em cada gemido
em cada grito,
perdidos no orvalhado da noite,
refletidos no dia que desponta.

Coisa boa as histórias que escrevo nos meus olhos
e reservo…
como calda de  açúcar
em pétalas de luz.


©Graça Costa

                                                                   Malcolm Liepke

PÉROLA ESCARLATE

Como pérola escarlate,
brisa de verão ao entardecer,
gota de chuva suculenta 
ou raio de sol por entre as nuvens,
assim é a tua boca na minha pele.

Morna,
terna,
sensual,
gulosa,
quase infantil,
procurando beber na minha
o néctar das tardes felizes.

Deixo-me ir
lânguida e serena
em direção à noite que promete
e visto-me de maresia
a condizer com o sonho.

Na paisagem,
desenho o aroma da fusão dos corpos...
e contemplo o entardecer
com um sorriso no olhar.


©Graça Costa