Olhou-o,
e sentiu a aura cálida do amor a inundar-lhe o corpo, como se estivesse a tocar-lhe a pele pela primeira vez.
Terna a lembrança daquilo que foi,
sereno o desejo daquilo que ainda podia ser.
Olhou-o,
e a pele falou,
como se pintada pelos dedos da paixão,
sibilando aromas de terra e mar
e os segredos partilhados na fusão dos corpos ao amanhecer.
Olhou-o,
e agradeceu ao acaso do destino
aquele segundo de eternidade
em que o coração se inquietou
perante a imensidão do amor que nascia.
© Graça Costa
Imagem da web
domingo, 16 de setembro de 2018
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
A PINCEL
Desenho a pincel os dias que passo sem ti,
para que a dor não mate
mas apenas arranhe.
Para que o sal dos olhos descanse em maré de calmaria,
e a ausência seja luz e não maresia,
alimento, farol,
fonte de luz,
alquimia.
Desenho a pincel os dias que passo sem ti,
porque em cada acordar recebo uma tela em branco
ávida de paisagens e sonhos
carícias e afectos.
Nela me perco como criança em loja de brinquedos.
Contemplo a pureza do dia que me entra nos olhos
agarro no pincel da vida,
visto-me de brisa , sol ou temporal
óleo, aguarela ou pastel
e na voragem do tempo que passa,
mergulho na obra que nasce.
Desenho a pincel os dias que passo sem ti,
porque as cerdas sabem o teu nome.
Assim te tenho por inteiro e cada pincelada,
em cada sussurro, lágrima ou gargalhada.
E assim,
da distância se faz presença,
da dor… magia,
da saudade…força,
do Viver,
arte, fantasia,
poema.
BOLINA
Tem dias em que me sinto
como pena que caiu em folha à bolina.
Doce expectativa…
Qual o caminho ?
Por onde me leva a brisa?
Que aventuras me esperam ?
Que perigos?
Que desafios ?
Tem dias assim…
em que acordo em suspenso
perante o dia que desponta.
Sinto o sol na pele
e tremo.
A brisa no rosto
e sorrio.
O apelo dos afectos
e suspiro.
A tortura da tua ausência
e sonho.
Como a pena em folha à bolina
entoo ao vento a prece que me leve até ti.
Então, talvez…
apenas talvez,
consiga saciar a sede que a noite matou
e com a aurora...
renasceu.
©Graça Costa
imagem da web
terça-feira, 4 de setembro de 2018
DOEM-ME AS PALAVRAS
Doem-me as palavras como feridas abertas.
Gritam.
Gemem.
Sussurram.
Reclamam.
Queimam-me o peito e afogam-me o olhar.
Sinto a alma jorrando lava,
escorrendo lenta e penosamente pelo mesmo peito,
onde momentos antes os teus lábios descansavam
e o teu corpo se derretia no meu.
Doem-me as palavras como feridas abertas.
Por isso as partilho
na voragem dos dias inquietos
e na esperança que alguém as faça suas.
Olha…
Vê como os olhos soletram a dor do sentir.
Vê como te chamam,
a ti,
balsâmico amante
de corpos e letras.
Vem,
lambe-me as feridas
para que as palavras renasçam
entre as flores e o arvoredo da paixão.
©Graça Costa
arte : janet rogers
O OLHAR NÃO MENTE
O olhar não mente
para os que têm a alma lavada para o saber ler.
Cristalino.
Sussurrante.
Chora.
Ri.
Gargalha.
Emociona-se.
Fala…
Enamora-se das palavras que não diz.
Reserva-as
como cobertura de bolo
que usa depois
de forma espartana
ou num excesso delirante
conforme o sorriso cresça,
sereno e suave
ou exuberante e sonoro,
como clarão de relâmpago numa trovoada de verão.
Adoro a subtileza dos sorrisos e dos olhares.
Enigmáticos,
sensuais,
misteriosos
brincalhões.
Sorrisos...
antologia de afectos
mesmo que tristes.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
CORPO POEMA
No teu corpo desenho poemas cantados .
A cada toque, a pele responde com um grito surdo,
meio gemido,
meio lamento
meio sussurro
meio tormento.
A cada beijo, reinvento-te,
reinvento-me,
saboreio-te como saboreio o poema,
letra a letra,
palavra a palavra,
rima a rima
ou rima nenhuma
mas lenta e suavemente como tango dançado ao luar.
Depois, volto e ler-te
e afago lentamente as palavras que te acendem a paixão.
e que te prendem a mim.
A ti me colo, meu poema
meio escrito,
por vezes gemido,
outras sussurrado,
e assim adormeço,
sem saber se durmo
ou apenas descanso
nesse teu colo feito cama,
só para me receber.
©Graça Costa
PAZ
Dá-me a tua mão
Sente-lhe a textura
o calor,
o aroma e a ternura do abraço.
o calor,
o aroma e a ternura do abraço.
Depois vamos.
Deixa que te leve
para além dos sentidos
para lá da saudade.
para além dos sentidos
para lá da saudade.
Deixa que te leve
para aquele lugar calmo
onde a dor não nasce
e o amor não morre.
para aquele lugar calmo
onde a dor não nasce
e o amor não morre.
Para aquele lugar terno
onde o corpo não tem nome
e o afecto tem forma de dedos,
de ternura,
e beijos
e pele em chamas.
onde o corpo não tem nome
e o afecto tem forma de dedos,
de ternura,
e beijos
e pele em chamas.
Depois…
Depois fiquemos assim,
na magia do entardecer,
lambendo as palavras com que nos despimos,
e que estas cubram o horizonte
com a magia da esperança,
como sonhos de paz
embrulhados em sono de criança.
Depois fiquemos assim,
na magia do entardecer,
lambendo as palavras com que nos despimos,
e que estas cubram o horizonte
com a magia da esperança,
como sonhos de paz
embrulhados em sono de criança.
©Graça Costa
domingo, 2 de setembro de 2018
SENTINDO O POEMA
Sinto a poesia a nascer-me na pele,
a iluminar-me o olhar ,
a queimar-me o sentir.
Sinto o poema
desflorando a madrugada rumo aos meus dedos,
com a alma
o suor
e o sangue
de um alfabeto por inventar.
Emoções e afectos,
palavras, ora quentes e serenas
ora lamentos , gemidos
quase prece,
quase dor
envolvem-me os dedos e o olhar.
Sinto a poesia a crescer-me na pele.
Toco-a ao de leve
e torno-a minha.
Salpico-a com o meu perfume de amante inquieta
e de alma aberta,
partimos ambas ao encontro dos dias,
por ora, apenas sonhados.
©Graça Costa
arte : Jennifer Yoswa
GUERREIRA
Cai a noite e tudo se transforma.
A guerreira vira pássaro,
flor,
princesa, ou arlequim,
misto de flor e de seda,
azul, prateada, carmim.
Bendita a cumplicidade da noite que tudo permite.
Sonho,
fantasia, dança,
brisa, sal, maresia, festim.
Do descanso da guerreira
agora lua, feiticeira, amante,
emerge a magia da palavra dita apenas com o olhar;
o convite da chama que arde sem se notar.
E o imprevisto acontece,
como acontece o Amor em dias incertos.
Doce a noite em que me deito
com o cansaço na pele e a ternura na voz.
Efémera noite, eu sei…
mas tão cheia de sonhos por cumprir.
A ela me entrego
com a nudez mais terna
e faço do seu abraço ,
uma homenagem ao dia que promete.
DEVANEIO
Centelha de dia,
fragmento doce e luminoso do entardecer.
fragmento doce e luminoso do entardecer.
Lamento de corpo cansado
envolto na fadiga da noite
que escorre pelo horizonte.
envolto na fadiga da noite
que escorre pelo horizonte.
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