domingo, 2 de setembro de 2018

SENTINDO O POEMA

Sinto a poesia a nascer-me na pele,
a iluminar-me o olhar ,
a queimar-me o sentir.

Sinto o poema
desflorando a madrugada rumo aos meus dedos,
com a alma
o suor
e o sangue
de um alfabeto por inventar.

Emoções e afectos,
palavras, ora quentes e serenas
ora lamentos , gemidos
quase prece,
quase dor
envolvem-me os dedos e o olhar.

Sinto a poesia a crescer-me na pele.
Toco-a ao de leve
e torno-a minha.
Salpico-a com o meu perfume de amante inquieta
e de alma aberta,
partimos ambas ao encontro dos dias,
por ora, apenas sonhados.


©Graça Costa
arte : Jennifer Yoswa


GUERREIRA

Cai a noite e tudo se transforma.
A guerreira vira pássaro,
flor,
princesa, ou arlequim,
misto de flor e de seda,
azul, prateada, carmim.

Bendita a cumplicidade da noite que tudo permite.
Sonho,
fantasia, dança,
brisa, sal, maresia, festim.

Do descanso da guerreira
agora lua, feiticeira, amante,
emerge a magia da palavra dita apenas com o olhar;
o convite da chama que arde sem se notar.

E o imprevisto acontece,
como acontece o Amor em dias incertos.

Doce a noite em que me deito
com o cansaço na pele e a ternura na voz.

Efémera noite, eu sei…
mas tão cheia de sonhos por cumprir.

A ela me entrego
com a nudez mais terna
e faço do seu abraço ,
uma homenagem ao dia que promete.


©Graça Costa
imagem da Web


DEVANEIO

Centelha de dia,
fragmento doce e luminoso do entardecer.
Lamento de corpo cansado
envolto na fadiga da noite 
que escorre pelo horizonte.
Livre como vento em fúria galopante
o sorriso desfaz-se no semblante guloso
de criança com olhar de algodão doce.
Fico...
aguardo a explosão da aurora
agarro a maré com dedos de luz
e deixo a vida florir
no sereno vigor do amor consentido.

© Graça Costa 
foto : Joaquim Cunha 


sábado, 1 de setembro de 2018

QUIETLY

Quietly
by the paths of illusion you took me.

Of lightness dressed.
I danced with the breeze.
Among the water lilies and foliage I floated,
as in calm afternoon breeze.

Quietly
I reinvented the magic of rebirth
at every step,
every look,
every kiss,
every moonlight.

Touch me, love ...
and cover my body with your lips of amazement.

Let the hunger for affection
become autumnal melody
and lets make from the dance of bodies
boldness,
tenderness,
passion
unnamed follies
new life,
exhaustion.

After ...
may sleep come to take care of our dreams...
Quietly...


©Graça Costa
photo: me...


OLHARES

Existem olhares hipnóticos,
com uma serenidade tão fluída
que parece envolver-nos o corpo e os sentidos.

Quando os encontro
consigo sentir a leveza das searas
envoltas na brisa das marés
e consigo sentir o pulsar da vida
através da beleza desses olhares.

Nesses dias
a plenitude do Ser  esmaga-me
mas não sinto dor.


©Graça Costa
imagem da web



ESCUTA


Escuta.
Mergulha no silêncio e escuta o corpo que te fala.

Ouve o clamor da pele,
e a toada triste das suas cicatrizes
quando lhes afagas o contorno da dor.

Ousa e ouve também a sua fome,
os seus desejos,
e a alquimia dos sentidos que a pele reclama.

Embrenha-te no silêncio da noite
e ouve como ela,
ora chora, ora canta
ora implora, ora dá,
no embalo de melodias por inventar.

Sem pressas,
observa cada curva,
cada poro,
cada marca.

Sente a dança dos sentidos
e deixa-te ser pele de outra pele.

Ouve e ousa
ser dona do seu sentir,
fundir-te na sua pele,
murmurar-lhe desejos de equinócios distantes,
enlouquecer de ternura,
explodir de prazer no seu ouvido.

Deixa-me explorar o limite do sentir
devagar,
serenamente,
como quem declama um poema soletrado a meia voz.

Murmúrios da pele,
sede….
desafio,
banquete de almas unidas
pela bebedeira de sentidos inquietos.

©Graça Costa
ARTE : Stephanie Clair


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

SONHAR

Quantas vezes digo a mim mesma:
Voa…
Voa mais alto,
ousa,
perde-te na imensidão do azul.
Conquista a lua
apenas com o desejo de querer abraça-la.

Faz pulseiras de pérolas com lágrimas,
colares com suspiros,
nuvens com solidão,
bailados com pétalas de estrelas
paraísos para o coração.

Sonhar é isto…
mais alto, 
mais longe, 
mais forte,
sozinha ou pela tua mão.

É ter a ternura na ponta dos dedos.
É colocar o Sentir a galope, 
num puro sangue lusitano;
é levar a imaginação para a vastidão do mar,
e usá-lo como tela 
para reescrever a história. 

No fim,
talvez a história não seja de encantar…

Mas o que é que isso importa,
se o importante mesmo
é a ousadia do Sonho

©Graça Costa


AMANHECENDO NA MINHA CIDADE

Hoje de manhãzinha dei um passeio a pé.
Sozinha, para me encontrar comigo e com os outros Eus que habitam em mim, andei sem destino nem hora marcada.
Por entre o silêncio dos passos, as paredes sussurraram-me segredos. Histórias de outros tempos, gravados nas pedras e na poeira dos dias vividos sem pressas.
Nos gemidos das suas cicatrizes, também o pulsar de uma nova vida, feita de memórias e sonhos.
Saboreio um quê de magia, na serenidade deste amanhecer na minha cidade.
Desfruto-o, com o deleite de ter na retina um fragmento de eternidade.

©Graça Costa


A ESPERA

Deixaste-me na boca um sabor a espanto,
na pele a súplica do desejo inacabado,
e a fome de mais que o dia levou.

Deixaste-me no olhar um sopro de maré viva,
uma tempestade de afectos incontidos
clamando pela noite
ou apenas pelo som dos teus passos na escuridão.

O dia passou,
lento e soturno,
mas dentro de mim,
sempre o sol
com os seus lábios de silêncio
e o paraíso no olhar,
envolvendo-me no fogo da espera
do tanto que te quero.

Depois o dia caiu no horizonte
deixando no ar promessas guardadas
no ontem que não chegou a ser.

Esperei-te.
Esperei o teu abraço
e naquele quê de dia em que a solidão termina.

Deixei-me envolver no rendilhado 
dos dias sonhados antes do amanhecer
em que os teus braços são cama
e o meu corpo
poema
pintado pelo teu olhar
colado no meu.

 ©Graça Costa
imagem - Jennifer Yoswa 


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

MELANCOLIA

O mar dos olhos transbordou
mas não eram lágrimas que lhe escorriam pela pele.
Cada gota vertia afectos à tanto guardados em cama de orvalho e mel.
Talvez por isso o seu choro não fosse pranto
mas antes chuva de embalo,
suave e melancólico como brisa na seara.

O mar dos olhos transbordou mas ela sorriu.
Sorriu com um sorriso tão doce
como beijo roubado na penumbra do sentir.

Sentiu a maré vir ao seu encontro
e recebeu-a com silêncio de amantes em espera.

Saboreou-a…
e com ela alimentou a alma naquele dia.

©Graça Costa
imagem - Miho Hirano