sábado, 1 de setembro de 2018

ESCUTA


Escuta.
Mergulha no silêncio e escuta o corpo que te fala.

Ouve o clamor da pele,
e a toada triste das suas cicatrizes
quando lhes afagas o contorno da dor.

Ousa e ouve também a sua fome,
os seus desejos,
e a alquimia dos sentidos que a pele reclama.

Embrenha-te no silêncio da noite
e ouve como ela,
ora chora, ora canta
ora implora, ora dá,
no embalo de melodias por inventar.

Sem pressas,
observa cada curva,
cada poro,
cada marca.

Sente a dança dos sentidos
e deixa-te ser pele de outra pele.

Ouve e ousa
ser dona do seu sentir,
fundir-te na sua pele,
murmurar-lhe desejos de equinócios distantes,
enlouquecer de ternura,
explodir de prazer no seu ouvido.

Deixa-me explorar o limite do sentir
devagar,
serenamente,
como quem declama um poema soletrado a meia voz.

Murmúrios da pele,
sede….
desafio,
banquete de almas unidas
pela bebedeira de sentidos inquietos.

©Graça Costa
ARTE : Stephanie Clair


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

SONHAR

Quantas vezes digo a mim mesma:
Voa…
Voa mais alto,
ousa,
perde-te na imensidão do azul.
Conquista a lua
apenas com o desejo de querer abraça-la.

Faz pulseiras de pérolas com lágrimas,
colares com suspiros,
nuvens com solidão,
bailados com pétalas de estrelas
paraísos para o coração.

Sonhar é isto…
mais alto, 
mais longe, 
mais forte,
sozinha ou pela tua mão.

É ter a ternura na ponta dos dedos.
É colocar o Sentir a galope, 
num puro sangue lusitano;
é levar a imaginação para a vastidão do mar,
e usá-lo como tela 
para reescrever a história. 

No fim,
talvez a história não seja de encantar…

Mas o que é que isso importa,
se o importante mesmo
é a ousadia do Sonho

©Graça Costa


AMANHECENDO NA MINHA CIDADE

Hoje de manhãzinha dei um passeio a pé.
Sozinha, para me encontrar comigo e com os outros Eus que habitam em mim, andei sem destino nem hora marcada.
Por entre o silêncio dos passos, as paredes sussurraram-me segredos. Histórias de outros tempos, gravados nas pedras e na poeira dos dias vividos sem pressas.
Nos gemidos das suas cicatrizes, também o pulsar de uma nova vida, feita de memórias e sonhos.
Saboreio um quê de magia, na serenidade deste amanhecer na minha cidade.
Desfruto-o, com o deleite de ter na retina um fragmento de eternidade.

©Graça Costa


A ESPERA

Deixaste-me na boca um sabor a espanto,
na pele a súplica do desejo inacabado,
e a fome de mais que o dia levou.

Deixaste-me no olhar um sopro de maré viva,
uma tempestade de afectos incontidos
clamando pela noite
ou apenas pelo som dos teus passos na escuridão.

O dia passou,
lento e soturno,
mas dentro de mim,
sempre o sol
com os seus lábios de silêncio
e o paraíso no olhar,
envolvendo-me no fogo da espera
do tanto que te quero.

Depois o dia caiu no horizonte
deixando no ar promessas guardadas
no ontem que não chegou a ser.

Esperei-te.
Esperei o teu abraço
e naquele quê de dia em que a solidão termina.

Deixei-me envolver no rendilhado 
dos dias sonhados antes do amanhecer
em que os teus braços são cama
e o meu corpo
poema
pintado pelo teu olhar
colado no meu.

 ©Graça Costa
imagem - Jennifer Yoswa 


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

MELANCOLIA

O mar dos olhos transbordou
mas não eram lágrimas que lhe escorriam pela pele.
Cada gota vertia afectos à tanto guardados em cama de orvalho e mel.
Talvez por isso o seu choro não fosse pranto
mas antes chuva de embalo,
suave e melancólico como brisa na seara.

O mar dos olhos transbordou mas ela sorriu.
Sorriu com um sorriso tão doce
como beijo roubado na penumbra do sentir.

Sentiu a maré vir ao seu encontro
e recebeu-a com silêncio de amantes em espera.

Saboreou-a…
e com ela alimentou a alma naquele dia.

©Graça Costa
imagem - Miho Hirano

SENTIR

Quantas tonalidades de mar abarcam os meus olhos?
Quantas pinceladas de céu encontro nos teus?
Quanto areal dourado exposto à brisa das tuas mãos encontras na minha pele?
Olho-te e vejo uma lua cheia vibrante,
um sol endiabrado lambendo-me o rosto,
uma fonte de água fresca estendendo-me os braços.
Olho-me e vejo-me nua como tela em branco,
musa dos teus olhos
melodia para os teus beijos.
Quantas tonalidades tem o amor que fazemos na penumbra dos dias?
Para quê saber,
se é no sentir que a alma tece...

©Graça Costa
imagem da web

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

COMO DA PRIMEIRA VEZ

Olhou-o e sentiu
a aura cálida do amor
a penetrar-lhe a pele,...
como se o estivesse a ver pela primeira vez.


Terna a lembrança
daquilo que foi.
Sereno o desejo
daquilo que ainda podia vir a ser.

Olhou-o
e a pele falou
como se pintada pelos dedos da paixão,
sibilando aromas de terra e mar,
revelando segredos partilhados
na fusão dos corpos
ao amanhecer.

Olhou-o
e agradeceu o acaso do destino,
aquele segundo de eternidade
em que o coração se inquietou,
perante a imensidão
do amor que nascia.

©Graça Costa
imagem do Pinterest
 
 

INTERMITÊNCIAS

Intermitente,
o sorriso após o êxtase
iluminava a escuridão como vaga-lume em noite de verão.

Inquietos os dedos dos amantes
desenhavam nos corpos
palavras imprevistas,
inventadas,
inconsequentes,
letais.

Sentiu o corpo derreter como espuma,
e o olhar preso no seu
numa suplica surda
em direcção ao recomeço.

Na intermitência do sorriso,
fragmentos de dor em suspensão
mesclados com aquele prazer doce
do amor partilhado.

Sem palavas
porque desnecessárias,
supérfluas,
apenas o sorriso permanece,
como tatuagem
gravada no rosto dos amantes sem nome,
perdidos na noite que amanhece.

©Graça Costa
imagem da web


 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

DÁDIVA

Bom quando o sorriso se solta dos lábios
e voa directo aos teus olhos.
Bom quando o beijo ganha asas
e mesmo ao de leve
consegue arrancar-te, arrepio d’alma.
Bom quando do toque da pele nasce o rendilhado da paixão,
da brisa,
a canção,
do raio de sol
a fusão dos corpos
quentes e suados como monções.
Bela a troca de olhares
que todas as línguas entendem.
Belas as palavras sussurradas ao luar,
cúmplices de noites eternas,
penetrando a aurora.
Contigo,
a suave textura do amanhecer
tem brilho de diamante
e odor de vida acabada de florir.
Contigo sou mar e chama
harmonia,
temperança,
flor do campo
luz de luar.
Contigo,
contemplo os dias
em que a saudade descansa
e visto-me de maresia
apenas para te ver sorrir.
©Graça Costa
imagem da web
 

 

AQUI ESTOU

Aqui estou,
no que ficou depois de ti,
enroscada no lamento da esperança
que morreu antes de ser mar.
 
Aqui estou,
com a sede à flor da pele
e a fome escondida na razão que já não é.
História por escrever mas já sonhada,
por viver mas já sentida,
aguarelada na aurora desflorando a madrugada.
 
Aqui estou,
nesta travessia de mim,
em busca do nós que já fomos
e do amanhã que inventamos
em cada amanhecer.
 
Aqui estou,
pedaço de mim em espera,
suspensa,
antecipando a magia do toque
da tua
na minha pele.
 
©Graça Costa