quarta-feira, 29 de agosto de 2018

INTERMITÊNCIAS

Intermitente,
o sorriso após o êxtase
iluminava a escuridão como vaga-lume em noite de verão.

Inquietos os dedos dos amantes
desenhavam nos corpos
palavras imprevistas,
inventadas,
inconsequentes,
letais.

Sentiu o corpo derreter como espuma,
e o olhar preso no seu
numa suplica surda
em direcção ao recomeço.

Na intermitência do sorriso,
fragmentos de dor em suspensão
mesclados com aquele prazer doce
do amor partilhado.

Sem palavas
porque desnecessárias,
supérfluas,
apenas o sorriso permanece,
como tatuagem
gravada no rosto dos amantes sem nome,
perdidos na noite que amanhece.

©Graça Costa
imagem da web


 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

DÁDIVA

Bom quando o sorriso se solta dos lábios
e voa directo aos teus olhos.
Bom quando o beijo ganha asas
e mesmo ao de leve
consegue arrancar-te, arrepio d’alma.
Bom quando do toque da pele nasce o rendilhado da paixão,
da brisa,
a canção,
do raio de sol
a fusão dos corpos
quentes e suados como monções.
Bela a troca de olhares
que todas as línguas entendem.
Belas as palavras sussurradas ao luar,
cúmplices de noites eternas,
penetrando a aurora.
Contigo,
a suave textura do amanhecer
tem brilho de diamante
e odor de vida acabada de florir.
Contigo sou mar e chama
harmonia,
temperança,
flor do campo
luz de luar.
Contigo,
contemplo os dias
em que a saudade descansa
e visto-me de maresia
apenas para te ver sorrir.
©Graça Costa
imagem da web
 

 

AQUI ESTOU

Aqui estou,
no que ficou depois de ti,
enroscada no lamento da esperança
que morreu antes de ser mar.
 
Aqui estou,
com a sede à flor da pele
e a fome escondida na razão que já não é.
História por escrever mas já sonhada,
por viver mas já sentida,
aguarelada na aurora desflorando a madrugada.
 
Aqui estou,
nesta travessia de mim,
em busca do nós que já fomos
e do amanhã que inventamos
em cada amanhecer.
 
Aqui estou,
pedaço de mim em espera,
suspensa,
antecipando a magia do toque
da tua
na minha pele.
 
©Graça Costa
 
 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

SAUDADE

Imersa em silêncio e sombra espero por ti.
Sentada nas memórias da dor, tento sufocar a tua ausência,
espero que recordes o meu perfume
e que ele te conduza até mim na escuridão da noite.

Imersa no silêncio rogo que me encontres.
que ainda te lembres do caminho,
que o teu corpo se abandone ao torpor dos passos
e o instinto da fome te conduza  à lembrança
dos dias em que vinhas de sorriso aberto
e sede nos olhos.

Saudades…
do calor do teu abraço,
dos beijos entrecortados de lágrimas e gemidos,
dos dias noites e das noites dia
das horas que passavam em segundos
e dos segundos que pareciam a eternidade.

Imersa no silêncio da noite, espero.
Espero, mas não desespero,
porque sei que um dia virás
e se hoje o destino não te trouxer de volta a mim,
tenho tudo o que vivi,
e o que vivi foi tanto !!!


©Graça Costa
imagem da web




 

VENCENDO O CANSAÇO



Com o marulhar das ondas gravado do olhar enfrentei o dia.
Precisava daquela paz que só o mar oferece, da doçura firme da onda a lamber a orla da praia, da brisa serena a beijar-me a pele.
Não tinha nada disso mas imaginei e imaginando vivi tão plenamente como se tivesse. Ouvi as gaivotas no seu grito faminto, a areia a chiar debaixo dos pés, os passos lentos, o horizonte brilhante, o mar de prata e neste quase paraíso imaginado agarrei o dia e fui com ele.
Quando o cansaço me invade, fecho os olhos e qual criança em dia de saudade, crio estes cenários e deixo-os entranhar-se nos sentidos como carícias. Ninguém sabe, porque ninguém vê e eu também não falo, mas só eu sei o bem que me faz esta pequena manobra de diversão, quando o cansaço me invade.
Hoje foi o mar, mas outras vezes é um campo de trigo alentejano a ondular na planície, ou uma floresta encantada de cores e aromas delicados.
Porque partilho isto hoje convosco ?
Ora, partilho porque acho que alguns de vós como eu, ficaram gratos por estas dicas para vencer o cansaço.
Haverá sempre quem ache uma tolice e eu respeito, mas comigo resulta… por isso aqui fica, para quem quiser experimentar.
Bastam uns minutos…
Beijo de Luz e um dia feliz
©Graça Costa
 
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

HOJE

Hoje o dia acordou com uma ténue luz nos cabelos e olhos orvalhados de cansaço.
Parecia que queria um pouco mais de noite, um pouco mais de ti e por isso agarrei-me às memorias, arrumadinhas em camadas para quase se não sentirem, e trouxe-as comigo.

Passei-as em revista, uma por uma, separei os para sempre, dos tanto faz e os tanto faz, dos não quero mesmo.
Depois um não sei quê de leveza invadiu-me o Ser, quase como se a luz nos cabelos que acordou o dia, me levasse num passeio inesperado de paz.
O dia foi passando e eu fui com ele, navegando nas águas mansas da saudade e nas lembranças de ti.

Quando regressei desenhei-te nos sentidos e enrosquei-me na tua pele, de sorriso aberto ao sonho e ao desconhecido, porque a vida não espera por quem tem medo de viver.


©Graça Costa
imagem do Pinterest
 
 
 

 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

DE ALMA NUA

Aqui me tens
de cara lavada e alma nua.

Aqui me tens ,
resplandecente de esperanças e memórias,
gritos surdos na garganta
e melodias no olhar.

Aqui me tens,
com o desejo à flor da pele
e uma girândola de afectos
pendurada no peito.

Ama-me como fores capaz.

Liberta-me das noites sem luar.
Polvilha-me o corpo de estrelas cadentes
e quando ela morrerem no horizonte,
que a tua boca seja o guia  da noite,
e o meu corpo
a tua bússola, barco e leme
numa viagem só de ida.

Aqui me tens
neste mar revolto dos dias agrestes
em que sou tranquilidade de tardes de outono,
paredes meias
com a noite que teima em não me ver.

Aqui me tens...
Ama-me se puderes,
ou então deixa-me ficar
na curva do fim da tarde
onde a morte por vezes passa
e costuma ser branda
para os corações sem dono.

©Graça Costa
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“ DE NENHUM FRUTO QUEIRAS SÓ METADE “



Vivo intensamente porque não sei viver de outra maneira e escrevo porque preciso .
Se calhar, por sentir intensamente, as palavras saem-me do controle e esboroam-se pelos poros e dançam, redemoinham, encontraram-se desencontram-se, enamoram-se, zangam-se, seduzem-se e quando o cansaço lhes roça a pele, deixam-se tombar para que eu as adormeça como sei, na cama doce de papel que lhes ofereço.

Escrever é também revisitar-me por dentro.
Nem sempre é uma viagem fácil de se fazer.

Tem dias em que as palavras doem como feridas abertas e parecem ser escritas a golpes de faca afiada. Nascem já cansadas, à espera que alguém as recolha e lhes dê outro sentir.
Mas, tem outros dias em que escrever é puro prazer, quase magia de voo, encantamento, brisa, maré cheia de afectos embrulhados ao entardecer.

Uns e outros completam-me, alimentam-me. Uns e outros são oferenda a quem quiser saborear, beber ou apenas afagar o sentir que eles albergam.
Não existe monotonia nos meus dias.

Mesmo quando o cansaço parece não ter fim e o meu corpo luta por tempo que parece não vir, mesmo assim tudo vale a pena, porque tudo é aprendizagem.
Quando me sinto pássaro livre planando na madrugada ou em voo picado rumo ao horizonte do dia que começa, vale a pena, porque me regenero, porque cresço.
Quando me encontro comigo e faço da solidão uma festa, encontro-me na fusão da energia que vibra ou na maresia dos dias claros e tudo faz sentido porque sorrio. E nesse sorriso de lábios e olhos estou por inteiro porque como diz o poeta Miguel Torga:
“De nenhum fruto queiras só metade.
E nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem ( no caso mulher ), não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.”

Sou assim, feita de excessos. Dou tudo como se não tivesse nada porque é nesta loucura que me reconheço.

©Graça Costa


quinta-feira, 26 de julho de 2018

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
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BATENDO NO FERROLHO DA ALMA

Hoje a saudade bateu-me no ferrolho da Alma.
Trazia no colo memórias enfeitadas de outros tempos, daqueles tempos em que o fazer sentido não era de todo importante. Importante era mesmo ... sentir.
Belas as memórias desses tempos, em que o sentir era mesclado de carinho, especiarias, canela e açúcar em calda; em que o cruzar do olhar continha uma miríade de afectos, sonhos, desejos e paixões e onde mesmo as não vividas tinham história para contar.
...
A saudade bateu no ferrolho da Alma e eu abri-lhe a porta.
Despi-lhe o casaco e convidei-a a entrar.
Acariciei-lhe o rosto e ela sorriu, grata pela atenção.
No silêncio da tarde, enchi o quarto com as memórias que a saudade trazia no colo.
Nem todas eram doces e belas, mas todas eram inteiras, vibrantes de vida, de alma, de dor...por vezes impregnadas de lágrimas feridas, à tanto tempo sofucadas no peito nu.
A saudade bateu no ferrolho da Alma e deixei-a entrar.
Ficámos assim, olhos nos olhos, bebendo-nos no silêncio das palavras não ditas porque desnecessárias.
Incondicional a dádiva da saudade.
Nunca vem pela metade.
Quando bate no ferrolho da Alma, parece furacão em busca de colo. Redemoinha, pede, bate, implora.
Hoje abri-lhe a porta e vou ficar a ouvir-lhe o lamento, escutando a magia do que ficou depois do vivido e se recusa a partir.

© Graça Costa