quarta-feira, 22 de agosto de 2018

DE ALMA NUA

Aqui me tens
de cara lavada e alma nua.

Aqui me tens ,
resplandecente de esperanças e memórias,
gritos surdos na garganta
e melodias no olhar.

Aqui me tens,
com o desejo à flor da pele
e uma girândola de afectos
pendurada no peito.

Ama-me como fores capaz.

Liberta-me das noites sem luar.
Polvilha-me o corpo de estrelas cadentes
e quando ela morrerem no horizonte,
que a tua boca seja o guia  da noite,
e o meu corpo
a tua bússola, barco e leme
numa viagem só de ida.

Aqui me tens
neste mar revolto dos dias agrestes
em que sou tranquilidade de tardes de outono,
paredes meias
com a noite que teima em não me ver.

Aqui me tens...
Ama-me se puderes,
ou então deixa-me ficar
na curva do fim da tarde
onde a morte por vezes passa
e costuma ser branda
para os corações sem dono.

©Graça Costa
imagem da web





 

“ DE NENHUM FRUTO QUEIRAS SÓ METADE “



Vivo intensamente porque não sei viver de outra maneira e escrevo porque preciso .
Se calhar, por sentir intensamente, as palavras saem-me do controle e esboroam-se pelos poros e dançam, redemoinham, encontraram-se desencontram-se, enamoram-se, zangam-se, seduzem-se e quando o cansaço lhes roça a pele, deixam-se tombar para que eu as adormeça como sei, na cama doce de papel que lhes ofereço.

Escrever é também revisitar-me por dentro.
Nem sempre é uma viagem fácil de se fazer.

Tem dias em que as palavras doem como feridas abertas e parecem ser escritas a golpes de faca afiada. Nascem já cansadas, à espera que alguém as recolha e lhes dê outro sentir.
Mas, tem outros dias em que escrever é puro prazer, quase magia de voo, encantamento, brisa, maré cheia de afectos embrulhados ao entardecer.

Uns e outros completam-me, alimentam-me. Uns e outros são oferenda a quem quiser saborear, beber ou apenas afagar o sentir que eles albergam.
Não existe monotonia nos meus dias.

Mesmo quando o cansaço parece não ter fim e o meu corpo luta por tempo que parece não vir, mesmo assim tudo vale a pena, porque tudo é aprendizagem.
Quando me sinto pássaro livre planando na madrugada ou em voo picado rumo ao horizonte do dia que começa, vale a pena, porque me regenero, porque cresço.
Quando me encontro comigo e faço da solidão uma festa, encontro-me na fusão da energia que vibra ou na maresia dos dias claros e tudo faz sentido porque sorrio. E nesse sorriso de lábios e olhos estou por inteiro porque como diz o poeta Miguel Torga:
“De nenhum fruto queiras só metade.
E nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem ( no caso mulher ), não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.”

Sou assim, feita de excessos. Dou tudo como se não tivesse nada porque é nesta loucura que me reconheço.

©Graça Costa


quinta-feira, 26 de julho de 2018

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
imagem da web

 

BATENDO NO FERROLHO DA ALMA

Hoje a saudade bateu-me no ferrolho da Alma.
Trazia no colo memórias enfeitadas de outros tempos, daqueles tempos em que o fazer sentido não era de todo importante. Importante era mesmo ... sentir.
Belas as memórias desses tempos, em que o sentir era mesclado de carinho, especiarias, canela e açúcar em calda; em que o cruzar do olhar continha uma miríade de afectos, sonhos, desejos e paixões e onde mesmo as não vividas tinham história para contar.
...
A saudade bateu no ferrolho da Alma e eu abri-lhe a porta.
Despi-lhe o casaco e convidei-a a entrar.
Acariciei-lhe o rosto e ela sorriu, grata pela atenção.
No silêncio da tarde, enchi o quarto com as memórias que a saudade trazia no colo.
Nem todas eram doces e belas, mas todas eram inteiras, vibrantes de vida, de alma, de dor...por vezes impregnadas de lágrimas feridas, à tanto tempo sofucadas no peito nu.
A saudade bateu no ferrolho da Alma e deixei-a entrar.
Ficámos assim, olhos nos olhos, bebendo-nos no silêncio das palavras não ditas porque desnecessárias.
Incondicional a dádiva da saudade.
Nunca vem pela metade.
Quando bate no ferrolho da Alma, parece furacão em busca de colo. Redemoinha, pede, bate, implora.
Hoje abri-lhe a porta e vou ficar a ouvir-lhe o lamento, escutando a magia do que ficou depois do vivido e se recusa a partir.

© Graça Costa

 

CONVERSANDO COM O SILÊNCIO

Existe no silêncio
um luar de nuvens mansas
uma alma secreta...
de murmúrios vestida.
uma doçura tamanha,
que só de o prever já me embalo
no seu sentir.

Só quem conversa com o silêncio,
tem alma para sentir o poema
que antes de o ser já dança na retina,
penetra a pele com a intensidade de um beijo
e desperta a fome
do amor vivido em firmamentos distantes.
Oxalá a noite me doure os sentidos,
me crave na pele a vontade de me dar
e que o canto da minha voz,
não seja voz
mas pele…
sedenta de outra pele.


©Graça Costa
imagem da web

 
 

sexta-feira, 13 de julho de 2018

WITHIN THE STORM


Lets make love as the tempest sings
and may the taste of our kisses fly
in the wings of dawn
throughout the day.

Lets play with time
dance with the playing song
of the rain against the window
as your fingers burn my skin
and your lips swallow my being.

Lets be poetry writers with no words
and as the tempest sings
may the silence of our bodies melting  in one another
with no guilt
and no worries
be the perfect portrait of peace
within the storm of life.

 ©Graça Costa
IMAGEM DO PINTEREST
 
 

MINHA ALMA POR TI LIBERTA


Existe nos seres quebrados pela vida
um quê de humano que me comove.

 Uma centelha de luz
 uma lágrima de esperança
 uma doce amargura na voz…

Não sei como definir
mas sei que sinto.

 A pele estremece.
 O mar dos olhos transborda.
 A maré de afectos esmaga-se contra a comporta do sentir
 e pede liberdade para agir.

E eu vou…impelida não sei porque energia…mas vou.
E acreditem…

Quanta magia descubro nos seres quebrados pela vida…
Quanta força me dão sem o saberem…
Quão grata fico à sua dádiva.

Quantas vezes te agradeço nas minhas preces,
a ti,
Ser quebrado pela vida
mais humano, generoso e verdadeiro
que muitos que por mim passam a toda a hora.

Agradeço-te…
em nome da minha alma por ti liberta.


©Graça Costa
imagem da web
 
 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

PERDIDA

Andei perdida na vereda dos sonhos
sem saber se era sonho
ou alguma alquimia sem nome que me prendia a eles.

Por um não sei quê de esperança,
ficava e pedia para ser verdade.
Que o teu nome fosse a música que o coração pedia.
Que o teu beijo fosse o alimento que a minha pele queria.
Que a tua voz fosse o doce arrepio que me invadia o ser
e me fazia sorrir.

Perdida na vereda dos sonhos foi tanto a vida vivida
como a sonhada.

 Nela, construí futuros por inventar,
vontades indomadas de te ter,
silêncios rasgando a solidão,
abraços famintos, carregados de amor.

Foi tanto o sentir,
tão profunda ternura,
tão doces as memórias,
que dei comigo sem vontade de voltar.

Na quietude do abraço, fiquei,
com a alma em chamas e o coração a transbordar.

Depois acordei,
e o mar dos olhos tinha o teu nome.

©Graça Costa
arte : Max Gasparini

 

terça-feira, 26 de junho de 2018

SAUDADE

Imersa em silêncio e sombra espero por ti.
Espero que recordes o meu aroma
e que ele te conduza até mim na escuridão da noite.
Sentada nas memórias da dor, tento sufocar a tua ausência.

Imersa no silêncio rogo que me encontres.
 Que ainda te lembres do caminho,
 que o teu corpo se abandone ao torpor dos passos
 e o instinto da fome te conduza à lembrança
 dos dias em que vinhas de sorriso aberto
 e sede nos olhos.

 Saudades…
do calor do teu abraço,
dos beijos entrecortados de lágrimas e gemidos,
dos dias noites e das noites dia
das horas que passavam em segundos
e dos segundos que pareciam a eternidade.

Imersa no silêncio da noite, espero.
Espero, mas não desespero,
porque se o destino não te trouxer de volta a mim,
tenho tudo o que vivi
e o que vivi foi tanto !!!


©Graça Costa
Imagem da web
 
 

sábado, 9 de junho de 2018

ESCUTA

Escuta.
Mergulha no silêncio e escuta o corpo que te fala.

Ouve o clamor da pele,
e a toada triste das suas cicatrizes
quando lhes afagas o contorno da dor.

Ousa e ouve também a sua fome,
os seus desejos,
e a alquimia dos sentidos que a pele reclama.

Embrenha-te no silêncio da noite
e ouve como ela,
ora chora, ora canta
ora implora, ora dá,
no embalo de melodias por inventar.

Sem pressas,
observa cada curva,
cada poro,
cada marca.

Sente a dança dos sentidos
e deixa-te ser pele de outra pele.

Ouve e ousa
ser dona do seu sentir,
fundir-te na sua pele,
murmurar-lhe desejos de equinócios distantes,
enlouquecer de ternura,
explodir de prazer no seu ouvido.

Deixa-me explorar o limite do sentir
devagar,
serenamente,
como quem declama um poema soletrado a meia voz.

Murmúrios da pele,
sede….
desafio,
banquete de almas unidas
pela bebedeira de sentidos inquietos.

©Graça Costa