segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

De papoilas e trigo vestida
surgiu no horizonte.

Trazia colada na pele
a brisa dourada de um campo alentejano
e parecia flutuar,
valsando numa nota só.

Aproximou-se…
trazia consigo
o aroma de pão acabado de cozer,
despertando a fome de um final de dia
na soleira do luar.

Ele viu-a,
mas não sabia se ousava, ou calava.
Encheu o peito com aquela visão
até o respirar se tornar doloroso.

Sentiu-se sufocar
e no desespero acordou…

Aos pés
encontrou grãos de trigo displicentemente espalhados pela cama.
Junto aos lábios
uma papoila carmim,
viçosa como beijo de amantes.

Sorriu…
e voltou a adormecer
esperando a noite que prometia.


©Graça Costa
imagem da web


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

PERFUME DE POESIA

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Sem saber como defini-lo
estendi-lhe o sorriso e bebi-o,
lentamente,
em silêncio,
como ritual sagrado.

Saboreei cada trago
com a dolência da paixão imprevista.

Deixei-me levar pelo arrepio da eternidade do momento.

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Vieste sem aviso mas com a força de uma maré viva
e eu recebi-te com a ternura de uma onda a beijar a areia.

Sem saber como te responder,
vesti-me de lua
coloquei nos cabelos pétalas de orvalho
e dei-me ao teu olhar em oferenda.

Depois anoiteceu…
e a noite é cúmplice de amantes inquietos.


©Graça Costa
imagem : katiejagielnicka


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

AMANHECER

O amanhecer trouxe-lhe à retina, memórias dos tempos em que o tempo não tinha tempo e a vida era vivida ao segundo, com a intensidade de um nunca mais.
Sentiu saudades desse tempo, em que tecia o tempo com mãos de amante e olhos de artista;
em que no silêncio da noite compunha, a quatro mãos, sinfonias com os tons quentes e suaves de outonos dourados e o sono era embalado pelas carícias que só o amor cúmplice reconhece.
Nesse amanhecer, enquanto o sol rasgava a aurora, sentiu o aroma familiar do amor recente e ficou um pouco mais, saboreando o alimento dos sentidos e a magia do dia que nascia.

Beijinho da Graça

©Graça Costa
imagem da web


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

FLUTUANDO

Tem dias que me sinto frágil
como uma borboleta de asas de vidro.
Meio zonza,
rodopio no efémero esplendor
de um pas de deux solitário.
Com a brisa como aliada,
trauteio as notas de um qualquer Nocturno,
e protejo o estilhaçar das asas com o aconchego de um amanhecer,
que imagino suave como pele
de criança recém nascida.
Nesses dias,
quando o sal dos olhos teima em sulcar a pele,
invento um casulo,
macio,
aveludado,
aroma de alfazema,
matizado de brisa e aurora boreal.
E com estas roupagens,
que só eu vejo,
que só eu sinto…
ensaio um sorriso e construo a magia de ser feliz,
mesmo que esteja só…no meio da multidão.
© Graça Costa
imagem da web


sexta-feira, 28 de julho de 2017

O MEU AMOR

O meu amor,
tem mãos de silêncio rompendo a aurora.

Traz na pele a brisa do vento
e no olhar a promessa de dias calmos.
O meu amor,
traz a saudade na ponta dos dedos
e a ternura nos lábios de dor.

A mim se oferece como em oração,
despojado de tudo,
fruta madura por colher.
O meu amor,
traz colado na pele
o grito da paixão contida,
e no peito,
a ânsia desesperada da partilha.
O meu amor,
dorme no meu peito.
Bebo-lhe o semblante e parto com ele,
em busca de outras paisagens
em que mesmo nua,
me sinta vestida de paixão e de esperança.
©Graça Costa
tela : Scott Mattlin 1955







quinta-feira, 27 de julho de 2017

DEIXA-ME FICAR

Deixa-me ficar
no exacto momento em que tudo acabou,
no exacto instante em que da explosão dos corpos
a eternidade nos inundou o olhar,
no exacto segundo e que fomos um átomo no firmamento da paixão.

Deixa-me ficar,
pois enquanto acordo, saboreio,
enquanto saboreio, sinto
e enquanto sinto,
volto ao exacto instante em que,
uma simples troca de olhares,
um simples toque de pele
um sereno e subtil arrepio
mudou o meu mundo para sempre.

Deixa-me ficar assim,
que logo me darei de novo
com a urgência de uma primeira vez
bebendo a ternura das tardes longas
em que ficamos ,
entrelaçados, rumo ao amanhecer.

©Graça Costa
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quarta-feira, 26 de julho de 2017

LET

Let your skin be my road to heaven.
Let your lips be my dream to wonderland.
Let your body be the alphabet of love in disguise
of laughter,
of whispers,
of shivers,
of surrender.

My body is your shelter.
My touch the seed of love.
My eyes cross rough frontiers
just to caress your soul.

Take me,
to that place where streets have no name;
to that magic place that changes when we make love.
The sun shines stronger,
the rain is sweeter
and time stops
just to let us dream.

Take me
for I'm longing to your touch.




©Graça Costa


quarta-feira, 19 de julho de 2017

VIDA OU SONHO?

O ondular dos corpos reflectidos na parede, acompanhado pelo marrulhar de gemidos surdos e lamentos longos, conferiam ao entardecer uma atmosfera quase mágica.
Na ombreira do sonho, de olhar preso no nada onde podia escrever quase tudo, ia tecendo o tempo com a delicadeza do efémero e a certeza da eternidade na ponta dos dedos.
Acompanhava o ondular dos corpos reflectidos na parede com aromas de festa e nostalgia e se a palavra por vezes emudecia, era porque o olhar falava muito mais do que devia.
Naquele entardecer que anoitecia, viu o êxtase crescer de mansinho, guiado pelas mãos do prazer sem tempo nem regra; pela inquietação das lágrimas repletas de sorrisos e pelos sorrisos banhados pela maresia da paixão.
Depois dormiu, sem saber se vira ou se sonhara; se sonhara ou se vivera.
Não sabia, nem quis saber porque o sabor a espanto era quente e suave como embalo ... e deixou-se ir.
©Graça Costa


terça-feira, 18 de julho de 2017

AS PALAVRAS

Sinto no eco das palavras ditas
todas as que ficaram por dizer.

As que morreram na garganta
e mesmo as que nem chegaram a sair do coração.

A todas guardo,
como tesouros enfeitados,
de lágrimas e sorrisos,
esperanças saltitantes
e decepções dilacerantes.

Gosto,
gosto das palavras,
da sua promessa de jogo incerto,
tecidas em brocado rosa carmim.

Gosto,
gosto da sinfonia das letras dançando nas pontas dos dedos.

E gosto,
mas gosto mesmo,
da paz que encontro quando abro o peito
e as deixo fluir,
dançando
qual onda em tarde de maré viva.


©Graça Costa
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ALMA

Tem dias em que pergunto às estrelas
qual a cor da Alma,
qual a a textura
o cheiro,
o semblante,
o matiz.

Imagino-a conforme o sabor dos dias
leve ou sombria,
doce ou matizada pelas especiarias do tempo.

No espelho do fim da tarde
contemplo o seu voar,
sinto-a a amarar no peito,
limpo-a das amarguras e dores,
cubro-a com os cristais estrelados da noite,
e embalo-a com carinho de mãe.

Depois, com pinceladas fortes mas serenas
estendo-lhe o sono,
como presente de paz.


©Graça Costa
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