quinta-feira, 13 de julho de 2017

TEIMOSAMENTE

Teimosamente,
sonhei um sonho sonhado, mil vezes adiado.
Teimosamente,
sonhei um sonho perdido na imensidão da alma,
que de tão febril se dissolveu na noite.

Teimosamente,
engano a fome,
bebo o vento norte que me sufoca o grito,
inspiro a paixão da vida vivida
e a da ainda por viver.

E continuo,
teimosamente a sonhar
até que as imagens se esfumem,
até que as palavras me sequem na ponta dos dedos,
até que a noite me engula o sentir,
até que...
sei lá até quando.

O tempo é coisa estranha
e eu “estranho-me” nele.
Por isso,
teimosamente persisto,
em sonhar a vida,
em ser eu...

teimosamente EU.

 ©Graça Costa





quarta-feira, 12 de julho de 2017

DESEJO

Ah, como eu gostava de morar na tua pele,
acordar e adormecer nela
para não ter que falar.

Ah, como eu gostava
que o teu riso fosse a minha luz
que o teu grito fosse a minha voz
que o teu sono fosse a aminha paz.

Gostava,
Gostava tanto,
que a vida fosse melodia
que o dia fosse maresia
que o teu beijo fosse harmonia
mesmo se com um toque de nostalgia.

Ah, como eu gostava de morar na tua pele
De sermos sempre dois
Sendo só um
E a cada entrega
renascer
sem dor
sem trégua
sem voz, sem regra.

Apenas nós.
Apenas pele.


©Graça Costa
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QUEM CONSEGUE?


Quem consegue definir-me angústia ?
Aquele pedaço de dor que arde mas não queima,
perfura, mas não rasga,
sufoca mas não mata,
explode, mas não grita.
Quem consegue dizer-me
que forma tem,
qual a sua cor, 
o seu aroma,
as suas feições,
a sua voz?
Se souberem...
digam-me,
para que eu possa
desenhar-lhe o semblante,
de frente e de perfil,
lhe possa ouvir a voz
e fotografar-lhe os passos.
Quem sabe,
talvez assim,
consigamos fechá-la
numa cela dourada
e que deslumbrada com a sua dolorosa beleza,
construa nela o seu berço 
e nos liberte do seu abraço.


© Graça Costa
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terça-feira, 11 de julho de 2017

THE PATH


Doing my path I was
slowly
step by step
sometimes dusty
sometimes like a field of hope.

My wings were free
as free was my soul
and so I kept on going
searching for that cloudy house
on the top of a hill.

Doing my path I was
dreaming of you
t'ill one day
merging the sky
I saw that white house of my dreams.

I knew you were there
the path took me to you
and so I smiled
like the sun
peeking through the clouds.


©Graça Costa


ANTES DE TE VER

Acordo
e sinto-te antes de te ver.

Na penumbra,
o perfil do teu rosto,
o sorriso quase infantil,
o calor da pele
e o teu perfume,
doce e almiscarado
como chocolate quente saboreado à fogueira.

Acordo
e finjo dormir
para prolongar o sonho.

Relembro a maré mansa e luxuriante do beijo,
a fusão da pele,
o crescendo da paixão,
o êxtase,
a exaustão.

Relembro e sorrio
neste quase sono que é quase fome,
neste amanhecer brilhante
em que te sinto,
antes de te ver.


©Graça Costa


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sexta-feira, 7 de julho de 2017

NÃO ESPERES

Não esperes pela madrugada para me amares.
Não esperes pelo amanhecer para me contemplares.
Não esperes pelo entardecer para me sorrires.
Não esperes, porque pode não chegar.
Não esperes, porque não és dono do tempo
e o destino pode ter planos diferentes dos nossos.
Não esperes...
Ama-me o mais que puderes
sempre que puderes,
onde puderes.
Sorri-me como se não houvesse amanhã
e o sol morasse no meu corpo.
Beija-me a pele com a ternura do amanhecer.
Toca-me com a magia das tempestades em alto mar,
fascinantes,
furiosas,
inconstantes,
majestosas.
Mas nunca te esqueças.
Não esperes...
que o amanhã é incerto
e agora tens-me por perto
toda afecto
toda luz
toda tua.
Não esperes...

©Graça Costa
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quarta-feira, 5 de julho de 2017

PEDAÇOS D' ALMA

Olho-me no espelho e vejo o cansaço, a dor, o desalento.
No corpo, as cicatrizes,
os sinais da luta inglória e insane,
em busca de um melhor amanhã que tarda em chegar.

Procuro no olhar, a esperança,
nas mãos estendidas, o recado silencioso,
o resgate de um abraço,
alimento para o dia que começa.
Assim me visto de crepúsculo e chama,
de candura e lama
de ousadia, fome e fantasia.
Oleira de mim,
construo o que as mãos permitem
e a pele aceita
sabendo que a obra visível
e a sonhada, sentida,
raramente são comparáveis.

Aquilo que para uns será sol,
para outros será nevoeiro, vento e maresia.
Vejo-me a cores, a grafitte ou a pastel.
Como me vêm os outros?
Não sei…
Não sei se quero saber.
Sou como sou...
Ainda que ferida, 
guardo a beleza da dor
e o esplendor da dádiva,
ofereço a candura do abraço
e a plenitude do ser.

Assim sou…
Inteira,
porque não sei ser de outro modo.
Assim me dou...
A quem tiver Alma para me sentir.

©Graça Costa




segunda-feira, 3 de julho de 2017

ABRAÇA-ME

ABRAÇA-ME

Abraça-me como se tudo estivesse no principio
e os teus dedos tocassem a minha pele pela primeira vez.

Apura os sentidos e decora-me o cheiro e o sabor.

Lavra-me o corpo de terra orvalhada
e planta-me a chuva no rosto
e as sementes da paixão na pele.

Depois espera...
contempla como o teu olhar se insinua,
perante o banquete de aromas, texturas e sabores
que o meu corpo te oferece.

Sacia-te neste campo de frutos silvestres
neste mar de coral
nesta fonte de água fresca.

Ou então...
abraça-me apenas.

©Graça Costa


sexta-feira, 30 de junho de 2017

SONHOS ROUBADOS

O dia acordou sinuoso e inquieto.
Pairava no ar um quê de mistério
e o horizonte trazia nos dedos
promessas de ternura em gomos de romã e ramos de violetas.

No ar, uma serenidade etérea
como se aquele dia trouxesse no rosto alvo
magia de sonhos roubados.

Os olhos abriram-se pelo espanto
da profusão de aromas e sons que vinham de longe,
mas que ao mesmo tempo pareciam sair de dentro de si.

Depressa percebeu que o  tempo
e o corpo se haviam fundido naquele dia,
em que a primavera nascia,
calma e serena por entre a maresia.

Fechou os olhos e sorriu ao sentir o raio de sol que lhe inundava o rosto.
Mordeu os lábios com sabor de romã,
vestiu-se de violetas e esperou.

Ao longe, o gemido dos teus passos
lentos,
ousados,
como o amor reinventado
em cada beijo trocado.


©Graça Costa
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quinta-feira, 29 de junho de 2017

VIAGENS

Há livros que nos perseguem como se tivessem corpo,
que nos acariciam como se tivessem mãos,
que nos falam como se tivessem boca,
que nos roubam a alma como amantes furtivos.
Há livros assim,
que nos arrebatam na primeira frase.
Neles mergulhamos,
com a sensual nudez do desejo
e cada página tem o aroma de sexo do amor acabado de fazer.
Cada linha tem a intensidade de um beijo
e cada palavra o calor da fusão da pele.
Existem livros assim.
Livros que nos envolvem o sentir
e nos deixam na pele marcas de vidas
que nunca foram nossas.
Magia das viagens feitas na palma das mãos.


©Graça Costa
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