sexta-feira, 2 de junho de 2017

A CURVA DO FIM DA TARDE

Esperei por ti na curva da tarde
como por ti esperou a fome do sentir.

Imaginei-te a romper a neblina
lentamente,
em slow motion,
saboreando cada passo que te trazia até mim.

Fechei os olhos e centrei-me nos sons,
no restolho que quebrava debaixo dos teus pés.

Mais  perto,
cada vez mais perto.

Não via , mas sentia o teu olhar preso no meu corpo
libertando-o de tudo o que te separava da minha pele.

E a pele sorria…
o olhar vidrava
o corpo gemia no silêncio da estrada.

Por fim senti-te chegar,
resposta à suplica muda que te pedia o olhar.

Arrepio de alma na curva da tarde.
Deitei-me no teu colo e deixei-me voar.

©Graça Costa
imagem da web





EVASÃO

Deixou cair o olhar num vazio impreciso
meio loucura, meio mar,
frágil como um corpo nu ao romper da aurora,
após mais uma noite entre pesadelo e sonho.

Enleou os olhos na paisagem,
e deixou-os vaguear
perdidos no horizonte
em passos incertos,
como se o dia que raiava trouxesse prenúncio de morte.

Banhada em nostalgia,
truncada pela saudade de uma amor que nunca foi chão,
passeou pela orla do mar,
deixando a espuma das ondas tocar-me o corpo
como se fossem mãos.

Fechou os olhos, fingiu sentir o êxtase do amor por fazer
e fez-se maré levada pelo nevoeiro.

O coração dizia-lhe que estava muito para além da saudade
e o que sentia não tinha nome.

Serenidade, nostalgia,
amor, paixão, magia ?

Lançou tudo às ondas
e na orla da praia esperou
o que o mar lhe traria de volta.

Esperou …
e imaginou que nome lhe daria.

©Graça Costa
foto da web - autor desconhecido




quarta-feira, 31 de maio de 2017

VERTIGEM

Vertigem...

Alquimia de afectos.
Sentidos incandescentes,
profusão estonteante de aromas e sabores.


Depois o silêncio,
o deleite do saboreio nos teus olhos almiscarados
em busca dos meus.

E novamente o toque da pele.
E novamente a magia,
e o mistério da descoberta de ti.

Vertigem...
sede,
magia,
paixão.

Imensidão de eternidade.
Ternura serena na fusão dos corpos,
em chama lenta.

©Graça Costa
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segunda-feira, 29 de maio de 2017

MY BODY

My body,
white page in your hands,
kiss to uncertain lips,
sometimes gentle,
sometimes urgent.

My body,
of a sweet texture,
cotton,
linen,
satin,
challenge I offer you,
fully,
for you to lose
and find yourself.

My body,
yours,
for you to enjoy,
to flavour,
to feed you,
and feed me.

Indulge my hunger of needing you,
and bind on my skin,
the urgency of new beginnings

© Graça Costa
image from
 Ines Araújo


domingo, 28 de maio de 2017

MISTÉRIOS DA PELE

Aguarela de pele,
rugosa
macia
doce
amargurada;
branca
rosada
gritando alarmada.

Solidão de pele na noite aninhada,
braço estendido
voz abafada,
lágrima quente
alma disfarçada.

Mas solta-se a voz
na nudez da noite,
e a pele sorri 
ao vento abraçada
num sorriso meio louco.

Enverga um vestido
esculpido a cinzel
grito de veludo,
carícia
poema,
ou apenas
pele
em textura plena.


©Graça Costa
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sábado, 27 de maio de 2017

DEPOIS

Trazia o outono nos cabelos
e um prado de erva fresca no olhar.

Caminhava como se trouxesse o luar nos pés,
iluminando o caminho
e semeando sorrisos.

O corpo nu,
convidava ao deleite de noites de verão
embaladas por brisa suave
e choro de guitarras.

Entreguei-me ao entardecer,
como se pudesse parar o tempo
e quase em súplica, sussurrei o teu nome ao vento.

Foi então que chegaste
e me cobriste o corpo de beijos
com a fome dos dias longos
e das noites por inventar.

Dei-me de novo
como da primeira vez,
sem medos nem lamentos,
toda alma,
todo corpo,
toda luz.

Depois veio a magia dos nossos corpos em chama,
o milagre da fusão
a exaustão.

Enrolei-me no teu corpo de mel
e deixei o sono levar-me
até ao mundo doce dos sonhos e das memórias.

Sereno o sono depois do amor...


©Graça Costa
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sexta-feira, 26 de maio de 2017

MEMÓRIAS

Trazia estampado no rosto 
o sorriso dos dias claros.

Nos olhos o brilho sereno dos tempos
em que um olhar, ainda que subtil, bastava
para gravar o momento nas paredes da eternidade.

Palavra semi ditas, 
ou apenas sussurradas,
faziam dançar o coração,
como joaninhas num campo de malmequeres.

Lanche partilhados no lancil dos passeios,
tinham o esplendor de jantares à luz de velas.

Desses tempos,
em que era feliz e não sabia,
tenho armazenadas saudades,
de lugares, gentes e gestos
de aromas, fantasias, afectos.

Desses tempos,
guardo a memoria do coração descompassado,
o sabor do beijo nunca dado
o olhar travesso do seduzido, sedutor,
o querer e o não querer ,
o desejo e o pavor de o ter.

Memórias,
tesouros guardados na gaveta do sentir,
amoras silvestres salpicadas de chocolate negro
que saboreio…
de quando em vez,
apenas porque quero.


©Graça Costa
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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A GUERREIRA

Tinha a alma fustigada
pelas lembranças de uma paixão sem memórias.

Naquele imaginário insólito
jamais se apercebera do imenso manto de solidão
em que envolvera a sua vida.

Dia a dia, ia trocando as máscaras
com que enfrentava os olhares se se cruzavam com os seus,
vivendo sem viver,
qual espectro de luz de vela
sujeito à emotividade da brisa.

Tinha a alma fustigada por lembranças em marca d’agua,
e sofria…

Precisava sentir a chuva nos cabelos,
o sol no rosto,
reinventar-se
e como página em branco,
recomeçar.

Um dia ousou viver e tirou a tirou a máscara.

Guardou-a no armário,
e com a displicência de guerreira em véspera de batalha
acendeu um fósforo,
virou a costas,
sorriu
e ficou a ouvir o crepitar das chamas.



©Graça Costa
imagem da web - autor desconhecido


segunda-feira, 22 de maio de 2017

GOSTAVA DE TE DIZER - dedicado ao meu filho mais novo num dia especial

Gostava de poder dizer-te
que o amor que sinto é do tamanho do universo,
mas não posso...
O universo pode ser demasiado pequeno e tenho receio de errar.
Gostava de poder dizer-te que o desejo que sinto
tem a magia de uma manhã clara,
mas nunca fui manhã e não sei definir essa magia.
Gostava de poder dizer-te que a felicidade é eterna,
mas sei que não é...
tal como sei que as palavras que escrevo
são apenas letras pintadas de emoção
e embrulhadas de cetim.
Por isso não te digo o amor que sinto.
Deixo que o descubras
e que o digas por mim.
©Graça Costa

E ele disse...
Obrigada filho.


sábado, 20 de maio de 2017

NOITE

Vesti-me de noite para me perder na escuridão.
Nela encontrei a paz que o dia me roubou.
Doce noite, que me embriaga os sentidos e me ilumina o olhar.
De ti me alimento,
e contigo fico
até que me embales o sono com o teu beijo de mãe,
ou carícia de amante.


©Graça Costa
foto da web, sem autor identificado