sexta-feira, 26 de maio de 2017

MEMÓRIAS

Trazia estampado no rosto 
o sorriso dos dias claros.

Nos olhos o brilho sereno dos tempos
em que um olhar, ainda que subtil, bastava
para gravar o momento nas paredes da eternidade.

Palavra semi ditas, 
ou apenas sussurradas,
faziam dançar o coração,
como joaninhas num campo de malmequeres.

Lanche partilhados no lancil dos passeios,
tinham o esplendor de jantares à luz de velas.

Desses tempos,
em que era feliz e não sabia,
tenho armazenadas saudades,
de lugares, gentes e gestos
de aromas, fantasias, afectos.

Desses tempos,
guardo a memoria do coração descompassado,
o sabor do beijo nunca dado
o olhar travesso do seduzido, sedutor,
o querer e o não querer ,
o desejo e o pavor de o ter.

Memórias,
tesouros guardados na gaveta do sentir,
amoras silvestres salpicadas de chocolate negro
que saboreio…
de quando em vez,
apenas porque quero.


©Graça Costa
imagem da web


quarta-feira, 24 de maio de 2017

A GUERREIRA

Tinha a alma fustigada
pelas lembranças de uma paixão sem memórias.

Naquele imaginário insólito
jamais se apercebera do imenso manto de solidão
em que envolvera a sua vida.

Dia a dia, ia trocando as máscaras
com que enfrentava os olhares se se cruzavam com os seus,
vivendo sem viver,
qual espectro de luz de vela
sujeito à emotividade da brisa.

Tinha a alma fustigada por lembranças em marca d’agua,
e sofria…

Precisava sentir a chuva nos cabelos,
o sol no rosto,
reinventar-se
e como página em branco,
recomeçar.

Um dia ousou viver e tirou a tirou a máscara.

Guardou-a no armário,
e com a displicência de guerreira em véspera de batalha
acendeu um fósforo,
virou a costas,
sorriu
e ficou a ouvir o crepitar das chamas.



©Graça Costa
imagem da web - autor desconhecido


segunda-feira, 22 de maio de 2017

GOSTAVA DE TE DIZER - dedicado ao meu filho mais novo num dia especial

Gostava de poder dizer-te
que o amor que sinto é do tamanho do universo,
mas não posso...
O universo pode ser demasiado pequeno e tenho receio de errar.
Gostava de poder dizer-te que o desejo que sinto
tem a magia de uma manhã clara,
mas nunca fui manhã e não sei definir essa magia.
Gostava de poder dizer-te que a felicidade é eterna,
mas sei que não é...
tal como sei que as palavras que escrevo
são apenas letras pintadas de emoção
e embrulhadas de cetim.
Por isso não te digo o amor que sinto.
Deixo que o descubras
e que o digas por mim.
©Graça Costa

E ele disse...
Obrigada filho.


sábado, 20 de maio de 2017

NOITE

Vesti-me de noite para me perder na escuridão.
Nela encontrei a paz que o dia me roubou.
Doce noite, que me embriaga os sentidos e me ilumina o olhar.
De ti me alimento,
e contigo fico
até que me embales o sono com o teu beijo de mãe,
ou carícia de amante.


©Graça Costa
foto da web, sem autor identificado


PROMISE ME

Promise me
you'll paint the horizon
with september colours
and autumn scents.

Dress me
with red golden leaves
and make dance in your arms
as if I was a newborn bird who lost its mother.

Promise me
you'll be
my shelter
and my home,
my lover, and my friend.

Stay inside me,
forever and always,
because without you,
days are grey
and nights are pale.

Stay...
Because melodies of surrender
are made at nightfall
and those miracles only happen
when soulmates like us
are around.


©Graça Costa
imagem da web


SE UM DIA

Se um dia eu for lago,
que o teu corpo fique sedento
e mergulhes por mim dentro,
até te saciares.

Se um dia eu for chuva
presa numa nuvem de papel,
peço ao olhar lágrimas doces
para que as bebas ao anoitecer.

Mas se um dia eu for palavra,
peço que os teus dedos sejam as letras
com que se escreve a paixão.

Aí , misturo tudo
saudade,
ternura,
desejo,
loucura,
a com toda a certeza
um dia, serei...
Amor.


©Graça Costa
imagem da web


quarta-feira, 17 de maio de 2017

MEU CORPO

Meu corpo,
página em branco nas tuas mãos,
beijo para lábios incertos,
ora meigos,
ora urgentes.
Meu corpo,
tela de textura suave,
algodão,
linho,
cetim,
desafio que te ofereço,
por inteiro,
para que nele te percas
e te encontres.
Meu corpo,
teu,
para que desfrutes,
saboreies,
te alimentes,
me alimentes,
me sacies a fome de te querer
e me coles na pele,
a urgência do recomeço.

©Graça Costa
imagem da web

terça-feira, 16 de maio de 2017

BEIJO

Imaginou-o adocicado,
lento
morno
perdido.
Desenhou-o perfeito
macio
envolvente
como pluma na brisa.
Sentiu-o carente
faminto,
desconcertado,
medroso.
Acariciou-o
contra o peito
molhou os lábios
e num impulso quase infantil,
matou-lhe a sede de mel.
Mudou-lhe a vida
aquele beijo
que hoje tem lar,
lhe ilumina o olhar
e se repete
a cada instante
em que o recorda.
Imaginou-o.
Desenhou-o.
Acariciou-o,
Bebeu-o com a calma e a ternura dos amantes em pressa.
Ah...aquele beijo tem história escrita na memória dos dias.
Eterno.
Mágico.
Nosso.

©Graça Costa
imagem da Web



segunda-feira, 15 de maio de 2017

QUASE



Incomoda-me o Quase,
a sua inconsistência,
a sua fraqueza, a forma inquieta como se esconde,
o que podia ter sido e não foi.
Incomoda-me o Quase.
Quase fui.
Quase fiz.
Quase consegui.
Quase amei.
Que quase é este que nos tolhe o sentir,
e rouba a plenitude do Querer.
Incomoda-me o Quase
e por quase me sufocar
descarto-o do meu sentir.
Quero a plenitude do todo,
o excesso da entrega,
a loucura do desejo,
a quase morte do êxtase.
Quero, não ter medo de sentir
não ter medo de ousar
ter alma e corpo e pele
para ser e para dar.
Incomoda-me o Quase...
Quase, não é suficiente .

©Graça Costa
foto: FStudio - Tomar


quinta-feira, 11 de maio de 2017

FAÇAM SIlÊNCIO

Façam silêncio...
Vejam o poema que nasce
naquela boca carnuda
como morango silvestre em pasto verde.
Vejam a forma como se move,
como insinua o beijo sem o dar,
como inflige dor sem tocar,
como aguça a fome sem falar.
Vejam como as palavras são excessivas,
perante uma gota de suor
descendo pelo peito,
para morrer subtilmente onde a vida começa.
Sintam a magia de uma alma consumida pelo fogo de paixão
libertando-se das amarras
para com ela escrever a melodia de um refrão.
Sintam…
mas façam silêncio
que a obra nasce sem ser pedida,
e o sabor das palavras
é o tempero colorido do silêncio,
com que pintamos as telas da vida.

©Graça Costa
imagem da web