quinta-feira, 6 de abril de 2017

MEDO

Sinto a correr-me nas veias
o grito do silencio
sufocado nas entranhas da terra.

Pó diamante
Carícia,
loucura
Vento,
Canção.

a beleza do grito do silêncio que calo
causa-me estranheza,
quase dor ,
comoção.

Com ela espalho magia,
poema, melancolia,
em fim de tarde marcado
pela fome do amor que promete.

Em noites de aurora boreal.
sinto correr-me nas veias,
o grito do silêncio
que pressinto nos teus olhos
e tenho medo.

Medo que eles quebrem.
Que soltem as amarras que te prendem a mim
e eu fique só
nesta luta com o vento que galga no horizonte.

Medo que fiquem apenas as memórias…
do grito do silêncio,
do pó,
das carícias,
da fome,
da magia.

Memórias…
partículas de sonho,
vividas sem ti.

Renego este medo.
Não quero ...


©Graça Costa
imagem da web


EM BUSCA DE TI

Mergulhei na noite em busca de ti,
do teu olhar meigo,
da tua pele serena e doce,
da tua paixão intensa
com sabor a mel e a maresia.

Mergulhei na noite em busca de ti.
Nela encontrei o mar dos teus afectos
e nela me tornei onda
para desaguar na tua praia.

E o mar sussurrou o teu nome.

A noite fez-se manto
e a lua fez-se caminho
para os meus passos incertos
de um amor suculento e maduro
como fruta de verão.

Mergulhei na noite em busca de ti.

E quando senti o teu toque na minha pele,
apenas sorri e deixei-me guiar
pela maresia dos sonhos,
onde a magia acontece
e a paixão ganha luz
através das tuas mãos .

©Graça Costa




quarta-feira, 5 de abril de 2017

MEU CORPO, MEU RIO

No meu corpo correm rios de afectos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno estendendo os braços,
ao por do sol reflectido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar do teu olhar.



©Graça Costa
foto de web


O VESTIDO DO SONHOS

Hoje andei vestida de sonhos
orlados de memórias,
perfumados de ternura.

Vesti-me e fiquei nua
quando eles ganharam vida 
e esvoaçaram à minha volta
como borboletas em busca da luz.

Enrolei-me num abraço solitário
e deixei-me ficar 
de olhos presos no tecto do quarto,
num êxtase infantil 
de quem sonha acordada 
com o dia que há-de vir.

Hoje...
Ahhhh
hoje andei vestida de sonhos 
e neles gravei mais sonhos
para vestir qualquer dia.


©Graça Costa
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terça-feira, 4 de abril de 2017

O ANÚNCIO DA PRIMAVERA



Hoje sai de casa como saio tanta outras vezes.
Saí com o sol no olhar, a brisa na pele e a ternura nos ombros.
Saí porque tinha que ser,
porque o dia me chamava com um ronronar felino pleno de promessas.

Dei comigo na beira do rio contemplando as margens,
as nuances de luz
e as cores do casario reflectido nas águas.

Dei comigo aspirando o aroma da primavera ainda imberbe,
cheia de promessas de noites cálidas,
paixões ardentes como papoilas beijando a beira dos caminhos.

Hoje saí de casa como saio tantas outras vezes,
mas não era eu que caminhava.

Era o corpo que me levava à descoberta da tarde.

E o corpo tinha magia,
voz de tenor
contornos de harpa
aroma de campos silvestres,
e o valsear de corpos em fusão lenta.

Neste assombro me encontro,
prenhe de primavera
sorrindo ao fim de tarde que me escorre dos dedos.

Ao fundo,
o secreto fascínio da lua
com a sua nudez ,
sensual e insinuante
temperamental,
inconstante,
leve e densa como a noite que lhe precede.

Hoje sai de casa como saio tanta outras vezes
e regresso com a magia da noite entranhada nos sentidos.

©Graça Costa
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

DIVAGANDO

Podia ter sido numa qualquer manhã, mas foi naquela.

Acordou com o sol a lamber-lhe o rosto e a folhagem da mata a entoar-lhe o nome num tom ritmado, quase hipnótico.

Deixou os passos fazerem o caminho que a alma pedia e num passe de luz e fantasia, encontrou-se embrenhada no meio da floresta, prenhe de vida e de desejos por revelar.

Fechou os olhos e sentiu-se vendada...
Na verdade não precisava do olhar para sentir a plenitude daquela maré de sensações encantadas, quase sensuais, como os raios de sol que lhe acariciavam o peito.

Apurou os sentidos e deixou-se levar pelos cheiros, pelos sons, pelo bater do coração.

Bebeu o néctar da terra e deixou-se embebedar pela paleta de cores que lhe estalava debaixo dos pés; paleta que não via mas intuía e lhe fazia tão bem como agua da nascente a escorrer-lhe pelo rosto.

Podia ter sido numa qualquer outra manhã, mas foi naquela.
Foi naquela que ousou despir-se de enganos e enfrentar a vida...de olhos vendados mas tão esclarecida, que mesmo vendada, nunca se sentiu perdida.

Sei que anda por perto...mas, não sei se a conhecem.


©Graça Costa


A SLOW DANCE

On my skin lay affections I can’t explain
and in the look, eyes I've not yet seen
but which presence I feel.

In my sleep I ear soft sounds from far lands.
Sweet sounds
velvety and with the smoothest of kisses.

In those days I imagine you playing for me,
me playing for you
and for the deepest corner of feeling
a slow dance erupts  from our bodies.

My heart feels your arrival.
My skin hungers for your touch
but I've learned to hold on.

Expectations lost in the wind
caress my body,
and I'm sure this music its you
thinking about me
dreaming about us.


©Graça Costa
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SONHOS DA MADRUGADA

Embriagada de insónia
enamorei-me da madrugada.

Pedi-lhe uma manhã clara
com raios de sol vibrantes
salpicados de brisa
e aroma de mar.

Pedi-lhe o calor do teu corpo
a ternura do teu abraço
o cheiro da tua pele
a textura de um beijo,
o som, precioso, da tua voz.

Enrosquei-me na tua ausência
que de tão presente se fez dor,
deixei que as lágrimas lavassem a saudade
e deixei-me levar …

O sono venceu a batalha dos sentidos.
Exausta,
adormeci nos braços da madrugada
e neles te revisitei.

Desse dia feito noite,
guardo os sonhos que inventei
e os ecos de ti que no olhar gravei.

Tesouros d´alma,
aromas de infinito,
alquimia de sentidos,
guardados na pele. 




©Graça Costa
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domingo, 2 de abril de 2017

COMO DA PRIMEIRA VEZ

Olhou-o e sentiu
a aura cálida do amor
a penetrar-lhe a pele
como se o estivesse a ver pele primeira vez.

Terna a lembrança
daquilo que foi,
sereno o desejo
daquilo que ainda pode vir a ser.

Olhou-o
e a pele falou
como se pintada pelos dedos da paixão,
sibilando aromas de terra e mar,
revelando segredos partilhados
na fusão dos corpos ao amanhecer.

Olhou-o
e agradeceu o acaso do destino,
aquele segundo de eternidade
em que o coração se inquietou
perante a imensidão
do amor que nascia.

©Graça Costa
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sábado, 1 de abril de 2017

O POEMA



O poema nasce de um quase nada
onde cabe um quase tudo.
Nasce de um som,
um gemido,
uma lágrima,
um sorriso,
uma porta entreaberta
cheia de sonhos secretos,
uma carícia,
uma flor,
uma palavra
ou apenas cor.

O Poema é dor e espanto
alegria,
desencanto.
É silêncio em que me escondo;
é chama
desejo, paixão,
encontro, desencontro, vulcão.
Nasce de um quase nada
onde cabe um quase tudo.

Com ele me visto,
porque dele sou
refém,
amante,
irmã.

©Graça Costa