segunda-feira, 6 de março de 2017

A ESPERA


Rasguei o peito na espera
da noite estrelada em que virias.

Vesti-me de festa,
com fios de ausência
e plena de nudez  soltei os cabelos à brisa
que te traria para mim.

A brisa veio,
carregada de silêncio e presságios febris,
ao mesmo tempo que a noite caia
pintando o céu de tonalidades vermelho sangue,
medos e sussurros magoados.

Queria sorrir, mas o sorriso morria-me na garganta.
Só os olhos falavam e diziam tudo o que eu não queira ouvir.

Fechei-os em prece
e do fundo do ser lancei um grito surdo nas profundezas da noite:

Vem amor,
Vamos escrever um daqueles diálogos tão nossos,
em que a magia dos corpos se torna melodia
sinfonia
canção
e a noite enlouquece só por nos ver passar.

Esperei…
mas só eu sei se vieste.


© Graça Costa
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PROCURO

Procuro no tempo,
o tempo em que o teu olhar
era a ampulheta dos sonhos
que sonhámos juntos.

Procuro no tempo,
o tempo em que do toque da pele
nascia a magia do entardecer
e no beijo trocado,
ternura aos pedaços
guardada na memória de dias errantes.

Procuro no tempo ,
o tempo em que na escuridão da noite
segui os teus passos
e na melodia do bater do coração te encontrei.

Procuro-te no tempo que foi
e no que há-de vir
porque sem ti na minha pele
não existe amanhecer.

©Graça Costa
imagem da net


domingo, 5 de março de 2017

NUDEZ

Gosto da simplicidade da nudez...
como simples é como o toque
dos teus dedos na minha pele,
como simples o brilho dos teus olhos junto dos meus,
como simples, o beijo de água fresca
que a tua boca me oferece.

Gosto da simplicidade da nudez,
serena como o sol rompendo a aurora,
como a brisa beijando a seara,
como as estrelas iluminando o teu caminho até mim.

Somente na simplicidade da nudez
cabe a dimensão do universo dos afectos partilhados
nas noites sem amanhã
e nos dias sem entardecer.

Somente na simplicidade da nudez
brilha a eternidade do momento,
em que do toque da pele
irrompe o vulcão dos sentidos
e a melodia perene do prazer
se torna na voz da Terra.

Aí sim...tudo pode acontecer...


©Graça Costa
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DIZ

Diz-me como suportar
a ausência do que não tive, mas já senti ?

Como calar a dor trilhada na pele
qual pauta inacabada
de mais um pôr de sol sem ti ?

Diz-me que o ontem foi miragem
e o amanhã será coragem.

Diz-me que o medo não tem cor
e que a sorte não tem pressa.

Diz-me que virás
que eu espero
na curva do fim da tarde,
ou na orla do amanhecer
onde te faça sentido,
onde me queiras,
eu espero.

Diz-me …
E eu deixarei as palavras
desfazerem-se num suave arquejo,
num soluçar ligeiro
como onda beijando a areia,
e ali ficarei
até que a mudança da maré
traga os teus dedos
até à minha pele.

©Graça Costa
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DILEMAS


Com os pedaços de memória
com que vou construindo este Ser,
encontro momentos de eternidade
vividos em segundos
e segundos
impregnados com a subtil da dor da eternidade.

Cravados na pele, cicatrizes.
Algumas quase pinturas,
esculturas,
ou rendas de cetim,
delicadamente tatuadas
neste corpo
livro aberto ao  amanhecer.

Gravados nos olhos,
tons e cores de viagens secretas,
vividas,
sonhadas,
bebidas,
tragadas
e na palma das mãos,
desejos guardados  ainda por revelar.

Uns parecem aves canoras,
outros,  frágeis borboletas,
temendo largar o colo
e desafiar o destino do lamento.

Não sei se largue, se esconda.
Não sei se ouse, se esqueça.

Dilemas…

Dilemas que quem vive
e ousa sentir.
Dilemas de quem grava na alma
tudo o que o coração grita.

Dilemas,
 que só quem  ama sabe dizer
quantas vezes ,
sem a palavra tocar.


©Graça Costa



sexta-feira, 3 de março de 2017

CONTIGO

Bom quando o sorriso se solta dos lábios
e voa directo aos teus olhos.

Bom quando o beijo ganha asas e mesmo ao de leve
consegue arrancar-te,  arrepio d’alma.

Bom quando do toque da pele nasce o rendilhado da paixão,
da brisa, a canção,
do raio de sol, a fusão dos corpos
quentes e suados como monções.

Bela a troca de olhares que todas as línguas entendem.
Belas as palavras sussurradas ao luar,
cúmplices de noites eternas
penetrando a aurora.

Contigo, 
a branda textura do amanhecer
tem brilho de diamante
e o odor de vida acabada de florir.

Contigo sou mar e chama
harmonia e desengano,
flor do campo e arvoredo.

Contigo reclamo a dúvida
da eterna magia de te merecer.

©Graça Costa
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TRIBUTE TO MICHAEL JAMES GARLAND - FACING LOVE - OUR DUET

FACING LOVE

Him
Moments subliminal continue to define,
I have seen your beauty in every raptures rose.
In the theater forever we commit sweet tenure,
thought is no longer mine alone.
Have no fear beloved for we are home.
Her
In this night
and all nights to come,
I'll be yours.
In this night
and all nights to come,
my eyes will sparkle and my skin will glow
under your touch.
Him
I will say adieu to starlight glow,
The shine of you eyes is all I know.
Love is your sweet caress leaving me beguiled,
Joy is the depth of your smile.
Her
Lay down next to me.
Lets feed ourselves of passion,
and write in the book of life
how true lovers reach eternity
by the simple share of skin and soul.
Him
Sweet satin of touch finds raptures notions,
An opus of every love contained in emotion.
Alive in sweet fire we coalesce in to expression,
the terminus of cashmere waves soulful devotion.
Her
Subtle this feeling.
We can call it love
or passion
or dream.
both astonishing
and scary
so deep and so ephemeral.
needs nudity of selfishness
needs us
particles of eternity
melted in one another.

(c) 2017 Michael Garland and Graca Costa


Escrito em Fevereiro 2017 - Written in february 2017


FAÇAM SILÊNCIO

Façam silêncio...
Vejam o poema que nasce
naquela boca carnuda
como morango silvestre em pasto verde.
Vejam a forma como se move,
como insinua o beijo sem o dar,
como inflige dor sem lhe tocar,
como aguça a fome sem falar.
Vejam como as palavras são excessivas.
Olhemos uma gota de suor
descendo pelo peito após o amor,
a morrer subtilmente no umbigo
e deixemos a alma consumir-se de afectos
sem palavras,
que não são precisas.
Façam silêncio,
que a obra nasce sem ser pedida
e as palavras
são a mescla das cores,
dos silêncios,
dos afectos
e da paixão
com que pintamos as telas da vida.

©Graça Costa
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quinta-feira, 2 de março de 2017

VOU

Com a poeira da espera
enfrentei o corpo nu transcendente de afectos.

Que amante é esta
que o amante espera em súplica,
quase prece.

Que viver é este
prenhe de desejo,
alma na voz
e pele em chamas.

Aguardo,
com o corpo raiado de estrelas em dor
e o olhar crivado de esperança
pelo entardecer que me mereça.

No fio da noite
a brisa impele-me o voo.

Não sei se fique se ouse.
Lá longe sinto o ritmo compassado de ti,
que num sussurro hipnótico me chama.

Tremo na antecipação de te ter,
e de sorriso em riste,
vou ...

©Graça Costa
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OUTONO


OUTONO

Entrou no outono da vida
com os receios de criança,
que descobre o fascínio de andar.

Eram tantas as mudanças
as que via e as que sentia,
tanto o medo, tantas as descobertas,
que atreveu-se a conhecer aquele novo Eu.

Era o corpo que se arredondava
e reclamava, insurrecto,
espaço e visibilidade.

Era o desejo,
que meticuloso se adensava em mistérios e exigências,
mandão,
soberano.

Era a volúpia dos sentidos ,
nos gestos e na gratidão
mas também no pragmatismo de uma nova missão.

Mas era sobretudo aquela bebedeira de ternura
que lhe escorria pelos dedos,
como mel em fio sobre torradas,
ante o espanto no olhar que a fitava.

Aprendeu a gostar daquela languidez,
tranquila e sedutora como um gato ao sol,
e aprendeu a perceber que isso lhe  alimentava o sorriso
e lhe coloria a esperança.

Enterneceu-se por esse novo EU

e deu consigo a pensar,
que talvez,
apenas talvez,
o Outono da vida
fosse, afinal Primavera.

©Graça Costa