segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

VOU

Com a poeira da espera
enfrentei o corpo nu transcendente de afectos.

Que amante é esta
que o amante espera em súplica,
quase prece.

Que viver é este
prenhe de desejo,
alma na voz
e pele em chamas.

Aguardo,
com o corpo raiado de estrelas em dor
e o olhar crivado de esperança
pelo entardecer que me mereça.

No fio da noite
a brisa impele-me o voo.

Não sei se fique se ouse.

Lá longe sinto o ritmo compassado de ti,
que num sussurro hipnótico me chama.

Tremo na antecipação de te ter,
e de sorriso em riste,
vou...

©Graça Costa
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COMO SE TIVESSEM BOCA

Há Palavras que nos beijam como se tivessem boca,
inundando a nudez da pele em chamas.

Coloridas, pastel ou grafite,
desenhadas neste corpo tela;
corpo poema,
corpo matriz,
corpo agonizante,
em espera…
abandonado à mercê das tuas mãos.

Palavras…
abandonadas à mercê dos teus afectos,
entregues à doçura da nostalgia
ou à paixão contida nos teus beijos.

Bendito este corpo que sente.
Bendito o arrepio da pele.
Bendito o grito do brilho do olhar que tudo diz.

Embrulhados em silêncio , assim ficamos
inventando palavras novas,
quem sabe se loucas
insensatas,
prenhes de desejo
que um dia alguém beijará.

Connosco…
Ficarão as memórias da criação
e a saudade do vivido
antes de ser sonhado.

© Graça Costa
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domingo, 5 de fevereiro de 2017

A GUERREIRA


Tinha a alma fustigada
pelas lembranças de uma paixão sem memórias.

Construíra na sua imaginação uma prisão de afectos,
atmosferas,
cheiros ,
texturas,
diálogos,
sorrisos,
lágrimas
e algumas canções.

Naquele imaginário insólito perdeu-se,
envolvendo a vida num  imenso manto de solidão.

Dia a dia,
ia trocando as máscaras
com que enfrentava os olhares que se cruzavam com os seus,
vivendo sem viver,
qual espectro de luz de vela
sujeito à emotividade da brisa.

Tinha a alma fustigada por lembranças em marca d’agua,
e sofria…

Precisava sentir a chuva nos cabelos,
o sol no rosto,
o grito,
o reinventar-se
e como página em branco…
recomeçar.

Um dia ousou e tirou a máscara.
Guardou-a no armário,
e com a displicência de um guerreiro em véspera de batalha
acendeu um fósforo,
virou a costas
e ficou a ouvir o crepitar das chamas.


©Graça Costa
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MAR DA VIDA

Espartanas as gotas de orvalho acariciavam-lhe o rosto,
antecipando um solarengo dia de outono.
Contudo, a sua alma estava negra,
como negro estava o futuro,
como negra a mão que lhe oprimia as palavras.

Palavras dolorosas e doentes,
que lhe dançavam enfurecidas nos horizontes da memoria
e na fonte dos sonhos.

Sentiu-se insegura,
quase patética,
numa fragilidade infantil
em que não se reconhecia.

Como pérolas
recolheu as gotas de orvalho,
uma a uma,
quase a medo
e ante aquela pureza vestal
vislumbrou  a alquimia da vida.

Juntou o sal dos olhos
ao sussurro da alma aflita,
mais o grito de quem está a parir um pequeno deus
ao qual juntou um outro grito de esperança.

Ténue esperança,
mas ainda assim,
esperança.

Juntou ao olhar e aos sentidos a paleta de cores do universo
e junto ao lago,
agora feito mar,
largou o negro,
como quem larga uma capa surrada,
gasta pelo tempo e pela dor.

Depois,
envergando apenas a subtil beleza da nudez acabada de parir
encontrou a razão.
A razão de ser,
a razão de estar ali,
a razão de ser quem era.

E porque a razão tinha razão,
deu a si mesma a oportunidade de renascer.

Mergulhou naquele mar
salgado como a vida,
doce como um beijo,
revolto como a paixão,
misterioso como o milagre do ritmo sereno das marés
e navegou,
usando a rota do sonho
plantada no interior de si.




©Graça Costa
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

AMANHÃ

Amanhã não sei se vou estar feliz...

não sei se me vou lembrar do aroma das romãs
das vermelho-dourados do outono,
se me vou aquecer 
com o calor dos abraços que não vou dar
mas vou sentir.

Amanhã, o dia vai nascer como todos os dias.

Sereno ou chuvoso,
solarengo ou enevoado,
trazendo consigo na sacola
o prenúncio da descoberta.

Amanhã não sei se vou estar feliz...
mas se acordar
já será tanto.

©Graça Costa
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OUTRAS PALAVRAS

Trago caladas no peito
palavras que não conheço,
afectos sem nome
e dores em dono.

Na imensidão de mim,
guardadas como tesouros,
estas palavras ainda por inventar
envolvem-me o sentir
qual brisa de fim de tarde.

Recolho-me e sinto-lhes o ritmo.~

Hipnótico e sedutor conduz-me a ti
e ao bailado de ondas e marés
com que me consomes o corpo
e me envolves a alma.

Assim,
deixo que nasçam,
claras e cristalinas
estas palavras que em forma de sorriso
ou de brilho no olhar enchem o horizonte de memórias.

Soltam-se da garganta numa língua que desconheço,
com a transparência de diamantes ao luar
e a delicadeza de abraços infantis.

Depois,
assim ficamos,
embebidos no néctar deste tango falado,
agora inventado,
à espera que o amor aconteça… mais uma vez


©Graça Costa
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

SORRISO DE MADONA

Ao longe 
aquele corpo vestido de lágrima,
exibia o enigmático sorriso de madona,
meio riso, meio dor
meio palavra, meio torpor.

Verdadeiramente hipnótica,
aquela visão de mulher vestida de lágrima,
qual viúva vestal
na beira da praia.

Não sei se dançava ou se chorava,
Se gritava, ou se rezava.
Na verdade, nem sei sequer se existia,
ou era nuvem passando
no horizonte do dia que morria.

Aproximei-me…
A beleza singela da imagem,
colou-se-me no olhar
e invadiu-me os sentidos como calor de fogo por dentro.

Ali fiquei,
qual onda beijando a areia
olhando aquele corpo vestido de lágrima.
E de tanto olhar reconheci aquele estado de alma; 
aquele rosto que espreitava pelas brumas da memória.

Vesti a lágrima…
e parti com ela,
levando comigo o enigmático sorriso de madona.

©Graça Costa


domingo, 29 de janeiro de 2017

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
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PROCURO

Procuro no tempo,
o tempo em que o teu olhar
era a ampulheta dos sonhos
que sonhámos juntos.

Procuro no tempo,
o tempo em que do toque da pele
nascia a magia do entardecer
e no beijo trocado,
ternura aos pedaços
guardada na memória de dias errantes.

Procuro no tempo ,
o tempo em que na escuridão da noite
segui os teus passos
e na melodia do bater do coração te encontrei.

Procuro-te no tempo que foi
e no que há-de vir,
porque sem ti na minha pele
não existe amanhecer.

©Graça Costa
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

NA ROTA DO SONHO

Espartanas as gotas de orvalho acariciavam-lhe o rosto,
antecipando um solarengo dia de outono.
Contudo, a sua alma estava negra,
como negro estava o futuro,
como negra a mão que lhe oprimia as palavras.

Palavras dolorosas e doentes,
que lhe dançavam enfurecidas nos horizontes da memoria
e na fonte dos sonhos.

Sentiu-se insegura,
quase patética,
numa fragilidade infantil
em que não se reconhecia.

Como pérolas
ou mesmo diamantes
recolheu as gotas de orvalho,
uma a uma,
quase a medo
e ante aquela pureza vestal
vislumbrou  a alquimia da vida.

Juntou o sal dos olhos
ao sussurro da alma aflita,
mais o grito de quem está a parir um pequeno deus
ao qual juntou um outro grito de esperança.

Ténue esperança,
mas ainda assim, esperança.

Juntou ao olhar e aos sentidos a paleta de cores do universo
e junto ao lago,
agora feito mar,
largou o negro,
como quem larga uma capa surrada e gasta pelo tempo e pela dor.

Depois,
envergando apenas a subtil beleza da nudez acabada de parir
encontrou a razão,
a razão de ser,
a razão de estar ali,
a razão de ser quem era.

E porque a razão tinha razão,
deu a si mesma a oportunidade de renascer.

Mergulhou naquele mar,
salgado como a vida,
doce como um beijo,
revolto como a paixão,
misterioso como o milagre do ritmo sereno das marés
e navegou,
pela rota do sonho,
plantada no interior de si.




©Graça Costa
imagem da web