domingo, 29 de janeiro de 2017

OS RIOS DO MEU CORPO

No meu corpo correm rios de afetos partilhados
e outros ainda por desbravar.

Nas suas margens, nenúfares e chorões
abraços e canções,
melodias de outono sereno
estendendo os braços ao por do sol
refletido na placidez das águas.

Nelas, correm também rios de dor
na sua lenta caminhada até ao afluente do rosto.

Aí …desaguam,
transbordam,
rebentam comportas que ninguém vê e só tu sentes,
ecoando no silêncio surdo e melancólico do olhar.

Alguns tornam-se riachos e acabam por secar.
Outros agigantam-se e levam-te na torrente.

Nesses dias o corpo deixa de ser corpo
e passa a ser maré viva,
vento norte
tempestade,
luta,
desespero,
naufrágio.

Assim é a vida
e os corpos que nela vivem.
Nuns dias sol,
noutros trovoada.

Por vezes amor, ternura, paixão.
Outras vezes,
vazio,
quase nada,
ilusão.

Meu corpo,
meu rio…
serpenteando nas veredas do sentir
até ao mar dos teus olhos


©Graça Costa
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PROCURO

Procuro no tempo,
o tempo em que o teu olhar
era a ampulheta dos sonhos
que sonhámos juntos.

Procuro no tempo,
o tempo em que do toque da pele
nascia a magia do entardecer
e no beijo trocado,
ternura aos pedaços
guardada na memória de dias errantes.

Procuro no tempo ,
o tempo em que na escuridão da noite
segui os teus passos
e na melodia do bater do coração te encontrei.

Procuro-te no tempo que foi
e no que há-de vir,
porque sem ti na minha pele
não existe amanhecer.

©Graça Costa
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

NA ROTA DO SONHO

Espartanas as gotas de orvalho acariciavam-lhe o rosto,
antecipando um solarengo dia de outono.
Contudo, a sua alma estava negra,
como negro estava o futuro,
como negra a mão que lhe oprimia as palavras.

Palavras dolorosas e doentes,
que lhe dançavam enfurecidas nos horizontes da memoria
e na fonte dos sonhos.

Sentiu-se insegura,
quase patética,
numa fragilidade infantil
em que não se reconhecia.

Como pérolas
ou mesmo diamantes
recolheu as gotas de orvalho,
uma a uma,
quase a medo
e ante aquela pureza vestal
vislumbrou  a alquimia da vida.

Juntou o sal dos olhos
ao sussurro da alma aflita,
mais o grito de quem está a parir um pequeno deus
ao qual juntou um outro grito de esperança.

Ténue esperança,
mas ainda assim, esperança.

Juntou ao olhar e aos sentidos a paleta de cores do universo
e junto ao lago,
agora feito mar,
largou o negro,
como quem larga uma capa surrada e gasta pelo tempo e pela dor.

Depois,
envergando apenas a subtil beleza da nudez acabada de parir
encontrou a razão,
a razão de ser,
a razão de estar ali,
a razão de ser quem era.

E porque a razão tinha razão,
deu a si mesma a oportunidade de renascer.

Mergulhou naquele mar,
salgado como a vida,
doce como um beijo,
revolto como a paixão,
misterioso como o milagre do ritmo sereno das marés
e navegou,
pela rota do sonho,
plantada no interior de si.




©Graça Costa
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NESTA MANHÃ

A manhã acordou cedo
e mandei-a embora.

Era cedo,
demasiado cedo para me soltar de ti.
Demasiado cedo
para ter a solidão por companhia
e a dor da perda
como ferida aberta sufocando-me o peito.

Rebelde fiz-lhe frente.
Olhei-a nos olhos
e esbofeteei-lhe a ousadia de vir sem ser pedida.

A manhã acordou cedo
mas mandei-a embora.

Fechei as cortinas…
voltei a cobrir-me com o manto da noite
enrosquei-me no calor do teu abraço
e voltei a dormir,
como criança depois do colo.

Agora acordei…
Lá fora o sol já dorme
mas dentro de mim brilha como diamante.

Tu estás a meu lado…
e eu enganei a madrugada.


© Graça Costa
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

AT DAWN


There was dawn
and all its possibilities.
There was me
naked as breeze
waiting for feeling
your breath on my skin;
waiting for that shiver
that makes it all worthwhile.

There was you
with your bright shining eyes
with that smile the melts my being
with that look
that makes me want to die in your arms.

There was dawn
and all its possibilities
and there were we
with this all new day of the endless love
built each time we made love
and our bodies and soul
connected with the universe.


© Graça Costa
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SILÊNCIO

Façam silêncio...

Vejam o poema que nasce
naquela boca carnuda
como morango silvestre em pasto verde.

Vejam a forma como se move,
como insinua o beijo sem o dar,
como inflige dor sem tocar,
como aguça a fome sem falar.

Vejam como as palavras são excessivas,
perante uma gota de suor
descendo pelo peito,
para morrer subtilmente onde a vida começa.

Sintam a magia de uma alma consumida pelo fogo de paixão
libertando-se das amarras
para com ela escrever a melodia de um refrão.

Sintam…
mas façam silêncio
que a obra nasce sem ser pedida,
e o sabor das palavras
é apenas o tempero colorido do silêncio,
com que pintamos as telas da vida.


©Graça Costa
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CORPO POEMA


Do meu corpo nascem poemas cantados .
A cada toque, a pele responde com um grito surdo,
meio gemido,
meio lamento
meio sussurro
meio tormento.

A cada beijo, reinvento-te,
reinvento-me.
Saboreio-te como saboreio o poema,
letra a letra,
palavra a palavra,
rima a rima
ou rima nenhuma
mas lenta e suavemente
como tango dançado à luz do luar
em noite de verão.

Depois, volto e ler-te
e afago lentamente as palavras
que te acendem a paixão
e que te prendem a mim.

A ti me colo,
meu poema meio escrito,
por vezes gemido,
outras sussurrado,
e assim adormeço,
sem saber se durmo
ou apenas descanso
nesse teu colo feito cama,
só para me receber.


©Graça Costa
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ONDE A SOLIDÃO TERMINA

Deixaste-me na boca um sabor a espanto,
na pele a súplica do desejo inacabado,
e a fome de mais que o dia levou.

Deixaste-me no olhar um sopro de maré viva,
uma tempestade de afectos incontidos
clamando pela noite
ou apenas pelo som dos teus passos na escuridão.

O dia passou,
lento e soturno
mas dentro de mim,
sempre o sol
com os seus lábios de silêncio
e o paraíso no olhar,
envolvendo-me no fogo da espera
do tanto que te quero.

Depois o dia caiu no horizonte
deixando no ar promessas guardadas
no ontem que não chegou a ser.

Esperei-te.
Esperei o teu abraço
naquele quê de dia em que a solidão termina.

Deixei-me envolver no rendilhado 
dos dias sonhados antes do amanhecer
em que os teus braços são cama
e o meu corpo
poema
pintado pelo teu olhar
colado no meu.


©Graça Costa


domingo, 22 de janeiro de 2017

VEM

Anda...
bebe nos meus olhos
o néctar das flores de outono,
quentes e doces como mel coado
em pão acabado do cozer.

Anda,
sacia-te,
que o tempo anseia pelo teu sorriso
e eu também.


©Graça Costa



sábado, 21 de janeiro de 2017

NO TEU OLHAR

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Sem saber como defini-lo
estendi-lhe o sorriso e bebi-o,
lentamente,
em silêncio,
como ritual sagrado.

Saboreei cada trago
com a dolência da paixão imprevista.

Deixei-me levar pelo arrepio da eternidade do momento.

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Vieste sem aviso mas com a força de uma maré viva
e eu recebi-te com a ternura de uma onda a beijar a areia.

Sem saber como te responder,
vesti-me de lua
coloquei nos cabelos pétalas de orvalho
e dei-me ao teu olhar em oferenda.

Depois anoiteceu…
e a noite é cúmplice de amantes inquietos.


©Graça Costa
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