quarta-feira, 30 de novembro de 2016

REENCONTRO

Hoje lancei as mágoas
ao vento que passava por perto.

Fechei a porta
e mergulhei no silêncio em busca de mim
sabendo que me encontraria
nos pedaços de ti guardados no peito.

Bebi o aroma da tua pele,
lavei a alma com memorias do teu olhar,
saciei-me no teu corpo imaginado
e deixei que a serenidade dos afectos
me envolvesse a pele em chama lenta
como lentos os teus beijos,
quais arrepios de morte com sorriso nos lábios.

Hoje lancei as mágoas
ao vento que passava por perto.

Vesti-me de brisa,
e no encantamento da noite deixei-me voar
em direcção ao teu abraço.


©Graça Costa
imagem da web




terça-feira, 29 de novembro de 2016

DISCOVERY


OUTONO

Entrou no outono da vida
com os receios de uma criança,
que acaba de descobrir o fascínio de andar.
Eram tantas as mudanças que via
tantas as outras que antevia
tantos os medos,
tantos os Ses
tantas as descobertas,
que aprendeu a desejar conhecer aquele novo Eu.
Era o corpo que se arredondava
e reclamava, insurrecto, espaço e visibilidade.
Era o desejo,
que meticuloso se adensava em mistérios e exigências,
mandão,
soberano.
Era a volúpia dos sentidos,
nos gestos e na gratidão
mas também no pragmatismo de uma nova missão.
Mas era sobretudo aquela bebedeira de ternura
que lhe escorria pelos dedos,
como mel em fio sobre torradas,
ante o espanto no olhar que a fitava.
Aprendeu a gostar daquela languidez,
tranquila e sedutora como um gato ao sol,
e como isso lhe alimentava o sorriso
e a esperança.
Um dia,
deu consigo a pensar
que talvez,
apenas talvez....
o outono da vida,
pudesse afinal ser primavera.
©Graça Costa


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

BRISA

Hoje vesti-me de vento, penas e luz.

Parti com a alma em chamas
e coração estrangulado.

Chamei a serenidade que carrego nos olhos
e construí um lago
de danças etéreas e flamingos eternos
flutuando no horizonte.

Hoje, vesti-me de vento.

Depois, acalmei
e tornei-me apenas…
brisa.


©Graça Costa
imagem da web



OLHARES

 Existem olhares hipnóticos,
com uma serenidade tão fluída
que parece envolver-nos o corpo e os sentidos.

Quando os encontro
consigo sentir a leveza das searas
envoltas na brisa das marés
e consigo sentir o pulsar da vida
através da beleza desses olhares.

Nesses dias
a plenitude do Ser  esmaga-me
mas não sinto dor.


©Graça Costa


sábado, 26 de novembro de 2016

DEVANEIO

Percorre-me o corpo como se fosse mar
e toca-me a alma como se fosses brisa.
Desperta-me os sentidos e torna-me tua.
Bebe-me.
Saboreia-me.
Entranha-me na tua pele
e nessa mescla do tudo e do nada
de excessos e devaneios,
façamos da noite uma melodia de afectos
lânguida e suave como o amor que termina e recomeça,
qual maré,
sem cessar.
E quando o cansaço for maior que o desejo
saibamos morrer…
entrelaçados,
exaustos pelo prazer vivido
e pelo que há-de vir
quando o brilho do olhar
voltar a incendiar-nos a pele.

Graça Costa 
tela : Victor Bauer 1969


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

EM BUSCA DE TI

Mergulhei na noite em busca de ti
do teu olhar meigo
da tua pele serena e doce
da tua paixão intensa com sabor a mel e a maresia.

Mergulhei na noite em busca de ti.
Nela encontrei o mar dos teus afectos
e nela me tornei onda para desaguar na tua praia.

E o mar sussurrou o teu nome,
a noite fez-se manto
e  a lua fez-se caminho para os meus passos incertos
sedentos de um amor suculento e maduro
pronto para me acolher.

Mergulhei na noite em busca de ti.

Depois senti o teu toque na minha pele,
sorri e deixei-me guiar pela maresia dos sonhos
onde a magia acontece
e a paixão ganha luz
através das tuas mãos .


©Graça Costa
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A GUERREIRA

Tinha a alma fustigada
pelas lembranças de uma paixão sem memórias.
Naquele imaginário insólito
jamais se apercebera do imenso manto de solidão
em que envolvera a sua vida.
Dia a dia, ia trocando as máscaras
com que enfrentava os olhares se se cruzavam com os seus,
vivendo sem viver,
qual espectro de luz de vela
sujeito à emotividade da brisa.
Tinha a alma fustigada por lembranças em marca d’agua,
e sofria…
Precisava sentir a chuva nos cabelos,
o sol no rosto,
reinventar-se
e como página em branco,
recomeçar.
Um dia ousou viver e tirou a tirou a máscara.
Guardou-a no armário,
e com a displicência de guerreira em véspera de batalha
acendeu um fósforo,
virou a costas,
sorriu
e ficou a ouvir o crepitar das chamas.

©Graça Costa
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TALVEZ


Talvez chame saudade,
à lágrima teimosa espreitando no canto do olho.

Talvez chame tristeza,
àquele olhar perdido nos confins da memoria.

Talvez chame ternura,
à suavidade do toque da pele
ou à doçura de um beijo.

Talvez chame magia,
à ternura com que embalo as palavras
só para vos fazer sorrir.

Talvez o sonho ganhe asas
e vos faça partir,
numa viagem sem rota
rumo a um qualquer amanhecer.

Talvez estas palavras ganhem vida
só porque sim…
porque tem que ser.


© Graça Costa
imagem da web


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

PROCURO

Procuro no tempo,
o tempo em que o teu olhar
era a ampulheta dos sonhos
que sonhámos juntos.

Procuro no tempo,
o tempo em que do toque da pele
nascia a magia do entardecer
e no beijo trocado,
ternura aos pedaços
guardada na memória de dias errantes.

Procuro no tempo ,
o tempo em que na escuridão da noite
segui os teus passos
e na melodia do bater do coração te encontrei.

Procuro-te no tempo que foi
e no que há-de vir,
porque sem ti na minha pele
não existe amanhecer.



©Graça Costa