sexta-feira, 14 de outubro de 2016

OXALÁ

Existe no silêncio
um luar de nuvens mansas
uma alma secreta de murmúrios vestida
uma doçura tamanha,
que só de o prever já me embalo
do seu sentir.

Só quem conversa com o silêncio
tem alma para sentir o poema
que antes de o ser já dança na retina
já penetra a pele com a intensidade de um beijo
e desperta a fome do amor vivido em firmamentos distantes.

Oxalá a noite me doure os sentidos,
me crave na pele a vontade de me dar
e que o canto da minha voz, não seja voz
mas pele…
sedenta de outra pele.


©Graça Costa
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A VOZ

Há uma voz cá dentro
que me dita o poema,
que conduz a saudade da mão ao olhar
do toque,
à entrega,
da fome
à paixão.

Há uma voz cá dentro
que me conduz o sonho
e um sonho
que me conduz a ti.

A ti...
meu amor e meu chão,
meu refúgio e minha paixão.

Há uma voz cá dentro
que me encanta e me desencanta
me acolhe e me repele,
catadupa de afectos
rolando num turbilhão.

Há uma voz cá dentro
que me dita o poema
e o poema...
não és tu nem sou eu...
mas nós,
eternamente Nós.

©Graça Costa
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A NASCER-ME NA PELE


Sinto a poesia a nascer-me na pele,
a iluminar-me o olhar ,
e a queimar-me o sentir
como sol de verão.

Sinto o poema
desflorando a madrugada rumo aos meus dedos,
com alma
suor
e sangue
de um alfabeto por inventar.

Emoções e afectos feitas palavras,
ora quentes
ora serenas
ora lamento
ora gemido,
quase prece,
quase dor,
sensuais como beijo
dolorosas como noite de solidão.

Sinto a poesia a crescer-me na pele.

Toco-a ao de leve
e torno-a minha.

Salpico-a com perfume de amante inquieta
e de alma aberta,
partimos ambas ao encontro dos dias,
por ora, apenas sonhados
mas já amados
de tanto sentidos.

©Graça Costa
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PINCELADAS

Trago na pele
pinceladas de Agosto
tatuadas pelos teus beijos .

Na boca,
o sabor a Maio
e paisagens de Outono a brotar-me dos olhos.

Moldados pela brisa
passeiam-me pelo rosto
sorrisos rasgados de memórias
escritas nos sulcos das rugas adocicadas.
.
Dos sonhos com travo a canela,
guardo a textura dos dias enleada nos teus braços,
quando o futuro era uma tela em branco
e a vida,
um diálogo sem palavras de corpos cansados.

Trago na pele pinceladas de Agosto,
peço ao Inverno que termine a tela
e sorrio ao ver-te chegar.


©Graça Costa
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terça-feira, 11 de outubro de 2016

ANTES QUE SEJA TARDE

Antes que seja tarde,
quero saborear o amanhecer
lamber o entardecer
e mergulhar na noite.
Antes que seja tarde,
quero sentir ...
sentir muito.
Quero ser tudo aquilo que não fui
por medo,
cobardia,
insegurança,
preguiça.
Antes que seja tarde,
quero a fusão da pele
o brilho dos sentidos
as palavras pensadas
mas nunca ditas,
o medo da perda
e o sabor da conquista
a adrenalina da luta
a insensatez da procura
a loucura do momento
e o que fica depois da te ter.
Antes que seja tarde,
quero soltar as amarras,
olhar o horizonte
com alma de navegante
errante e inquieto,
galopar a brisa
partilhar com o vento
o desafio das marés
e partir.
Antes que seja tarde
quero viver...

©Graça Costa
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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A THOUGHT

Her mouth seemed a luxurious red strawberry.
Tasted like heaven,
like love freshly made still running in her veins
and caressing her skin.

From her lips
drops of tenderness
slipped through her body
gently
slowly like a butterfly wave
till gently die
in the memories of feeling.

©Graça Costa
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NO TEU OLHAR

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Sem saber como defini-lo
estendi-lhe o sorriso e bebi-o,
lentamente,
em silêncio,
como ritual sagrado.

Saboreei cada trago
com a dolência da paixão imprevista.

Deixei-me levar pelo arrepio da eternidade do momento.

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Vieste sem aviso mas com a força de uma maré viva
e eu recebi-te com a ternura de uma onda a beijar a areia.

Sem saber como te responder,
vesti-me de lua
coloquei nos cabelos pétalas de orvalho
e dei-me ao teu olhar em oferenda.

Depois anoiteceu…
e a noite é cúmplice de amantes inquietos.


©Graça Costa
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sábado, 8 de outubro de 2016

AS PALAVRAS

Sinto no eco das palavras ditas
todas as que ficaram por dizer.

As que morreram na garganta
e mesmo as que nem chegaram a sair do coração.

A todas guardo,
como tesouros enfeitados,
de lágrimas e sorrisos,
esperanças saltitantes
e decepções dilacerantes.

Gosto,
gosto das palavras,
da sua promessa de jogo incerto,
tecidas em brocado rosa carmim.

Gosto,
gosto da sinfonia das letras dançando nas pontas dos dedos.

E gosto,
mas gosto mesmo,
da paz que encontro quando abro o peito
e as deixo fluir,
dançando
qual onda em tarde de maré viva.


©Graça Costa


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A CHEGADA

Gravei na noite
o teu corpo em chamas.

Nele mergulhei
como em terra molhada
adocicada pelos beijos que não dei.

Guardei-os na pele e o olhar
como diamantes
e vesti-me de madrugada
para te enternecer.

Sussurrei  o teu nome,
letra a letra
macio como algodão doce
delicado como cetim no meu corpo nu.

Senti-te chegar com o dia que amanhecia.
Trazias no olhar o desejo da espera
e nas mãos as carícias guardadas pela saudade.

Chegaste cheio de ti,
e tão carente de mim
que o dia entardeceu
apenas
para os deixar amar.


©Graça Costa
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OLHOS

Falavam uma língua estranha aqueles olhos,
ora esmeralda
ora avelã ou azeitona de Elvas.

Falavam de afectos esquecidos,
memorias adormecidas,
sonhos perdidos nos confins da memória.

Talvez fosse medo...
medo de falar e não serem entendidos,
medo de gritar e serem acorrentados,
medo de sussurrar e ninguém ouvir,
e por isso falavam aquela língua estranha.

Estranha a língua dos eleitos,
a dos que ousam ter no peito um coração que bate
ao ritmo da neve numa noite de inverno,
e usam a melodia do amor para soletrar
as palavras que aqueles olhos falam,
mesmo quando dos lábios só ouvimos,
o embalo do silêncio.




©Graça Costa