sexta-feira, 7 de outubro de 2016

OLHOS

Falavam uma língua estranha aqueles olhos,
ora esmeralda
ora avelã ou azeitona de Elvas.

Falavam de afectos esquecidos,
memorias adormecidas,
sonhos perdidos nos confins da memória.

Talvez fosse medo...
medo de falar e não serem entendidos,
medo de gritar e serem acorrentados,
medo de sussurrar e ninguém ouvir,
e por isso falavam aquela língua estranha.

Estranha a língua dos eleitos,
a dos que ousam ter no peito um coração que bate
ao ritmo da neve numa noite de inverno,
e usam a melodia do amor para soletrar
as palavras que aqueles olhos falam,
mesmo quando dos lábios só ouvimos,
o embalo do silêncio.




©Graça Costa


terça-feira, 4 de outubro de 2016

OLEIRA DE MIM

Memórias de um tempo distante....
Cara sardenta
olhos de mar,
pele trigueira,
mãos de luar
sorriso matreiro
música no andar.

Memórias de cheiros
palavras,
sons
rituais
e tantos…tantos mais.

Fragmentos de ser envoltos em maresia,
palpitantes de afectos,
dores,
sorrisos,
abraços,
lições e contradições.

Memórias...
espátulas do tempo em que me encontro comigo,
oleira de êxtase e dor 
que no esplendor da noite
se transforma e segue
em direcção a um novo amanhecer.


©Graça Costa


BEYOND WORDS


Dancing with the moonlight I was
when a scent of you
invaded my skin.

That unspeakable feeling
led me to a magic world of tenderness and affection
in which I give myself to you
and you give me back my all
shining like a star.

I arrived gently,
touched you slowly,
kissed you deeply,
grabbed your hands,
and led them to my skin on fire.

Heard you.
Your breath stopped.
You shivered of expectation,
your eyes seemed a lighthouse
and I just whispered at your ears:
I'm here
make me yours.

Heard you weeping
and your tears and lips
painted my body
with pleasure beyond words.


©Graça Costa
imagem da web



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

BEIJO


Beijas-me como o escultor
que acaricia o barro
para nele se fundir
devagar
como o entardecer.

Nas tuas mãos sou terra
mar e ar,
elementos em fusão
sem pressas,
sem lamentos.

Nas tuas mãos respiro
ao ritmo dos dedos
com que me envolves
e neles me derreto
como orvalho ao amanhecer.

Mais tarde,
agarro a cumplicidade da noite,
A ela ofereço os murmúrios que
no torpor da paixão
 arrancas do mais fundo de mim.

 Saboreio o desejo
que pressinto os teus olhos
e colo-me a ti num beijo quente,
longo,
lento,
porque há beijos mais profundos do que o mar.


©Graça Costa
imagem - Kiss, Andy Warhol, 1963.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PLEASE

Let me reinvent hope
with the childish joy
of guitar tender weep.
From my breast
would sprout poppies
rainbows and blueberries
and from this alchemy
of affections
a all world
of new emotions will flow.

Let me reinvent hope
for the world keeps spinning
but its turning grey
and I need it
colourful
to enlighten my smile.
My smile...
the path you cross
just to caress my body.

So please...
let me reinvent hope...
I'm so tired,
I need to sleep
and sleep without your arms around me
is no sleep
just exhaustion.

Please...


©Graça Costa
imagem da web


QUEM CONSEGUE ?


Quem consegue definir-me angústia ?
Aquele pedaço de dor que arde mas não queima,
perfura, mas não rasga,
sufoca,mas não mata,
explode, mas não grita.

Quem consegue dizer-me
que forma tem,
qual a cor,
o aroma,
as feições?

Se souberem...
divulguem,
partilhem.

Desenhemos-lhe o semblante,
de frente ou de perfil,
ouça-mos-lhe a voz,
fotografemos-lhes os passos.

Quem sabe,
talvez assim
consigamos encarcerá-la numa cela dourada ou de cetim
e que deslumbrada com a sua dolorosa beleza,
construa nela o seu castelo
e nos liberte do seu abraço.


©Graça Costa
Imagem da web


terça-feira, 27 de setembro de 2016

FRAGMENTOS


Trago fragmentos de poesia soltos nos cabelos.
Aromas de palavras ditas e de outras por dizer
pedaços de afecto colados na pele,
escorregando devagar até aos dedos
na esperança de que os deixe voar.
Nem sempre as deixo partir…
Tem dias em que preciso delas só para mim
como água de uma qualquer fonte-mãe,
redentoras,
âncora dos meus medos.
Noutros dias deixo-as ir…
espalhar fragâncias de afectos partilhados
envolver-se em bailados de mãos
corpos, olhares e sorrisos
envoltos em brisa de fim de tarde .
Trago fragmentos de poesia soltos nos cabelos.
Pedaços de mim,
lançados ao amanhecer.
©Graça Costa
imagem de Web


domingo, 25 de setembro de 2016

DA MINHA ESSÊNCIA

Energia e matéria
harmonia de contrários
luz …terra
vento…mar
fogo…maresia.

Assim me sinto
na soma do tempo que passa.
Errante,
na candura dos sonhos.
Guerreira,
na tempestade dos dias.

Vivo no equilíbrio perene
do conceito e do verbo;
do pronome e do advérbio.

No desafio da descoberta,
enfrento o eterno talvez,
o complexo Se…
o carinho,
a paixão,
a emoção da dádiva,
o desabrochar do coração.

Nele me reencontro,
e com ele me reinvento
fugitiva de mim
presa no Ser que sou...
essência,
magia,
doçura,
pó …


©Graça Costa


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

EM DIRECÇÃO AO TEU ABRAÇO

Doces, os sulcos marcados na pele trigueira.

Rugas de esperança,
plantadas pelos caminhos da dor
cansaço e maresia.

Lá longe,
no horizonte da memória
o brilho ténue de um sorriso travesso,
e de um olhar verde cristalino…
memória doce de sonhos de criança.

Nesse rosto quase esquecido
revisito o caminho que me levou a ti.
Na beleza sinuosa dessas rugas
volto a percorrer os sons da descoberta,
os cheiros a salva e maresia
guardados no peito
como tesouros silvestres.

Semicerro os olhos
e deixo-me envolver pelos aromas da vida.

Depois,
na placidez da tarde
enrosco-me no por do sol,
acaricio o rosto com pétalas de luz
e, no aconchego do sonho,
deixo-me ir
em direcção ao teu abraço.


©Graça Costa
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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

NA CURVA DO AMANHECER

Na curva do amanhecer senti-te chegar.

Trazias na pele aromas distantes
e no olhar marcas de saudade acumuladas
como cansaço.

Contigo vinham também
as memórias dos dias calmos
em que nos perdíamos das horas
e reinventávamos o tempo.

Senti-te chegar
e o mar dos olhos inundou-me o sentir.

No peito o coração batia forte
e no descompasso da dor
gemia o lamento da noite.

Senti-te chegar na curva do amanhecer
e tu sentiste o beijo a florir-te na pele.

Deste-me a saudade
e eu dei-me a ti
por completo
ali mesmo
na curva do amanhecer.

©Graça Costa
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