sexta-feira, 23 de setembro de 2016

EM DIRECÇÃO AO TEU ABRAÇO

Doces, os sulcos marcados na pele trigueira.

Rugas de esperança,
plantadas pelos caminhos da dor
cansaço e maresia.

Lá longe,
no horizonte da memória
o brilho ténue de um sorriso travesso,
e de um olhar verde cristalino…
memória doce de sonhos de criança.

Nesse rosto quase esquecido
revisito o caminho que me levou a ti.
Na beleza sinuosa dessas rugas
volto a percorrer os sons da descoberta,
os cheiros a salva e maresia
guardados no peito
como tesouros silvestres.

Semicerro os olhos
e deixo-me envolver pelos aromas da vida.

Depois,
na placidez da tarde
enrosco-me no por do sol,
acaricio o rosto com pétalas de luz
e, no aconchego do sonho,
deixo-me ir
em direcção ao teu abraço.


©Graça Costa
imagem da web


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

NA CURVA DO AMANHECER

Na curva do amanhecer senti-te chegar.

Trazias na pele aromas distantes
e no olhar marcas de saudade acumuladas
como cansaço.

Contigo vinham também
as memórias dos dias calmos
em que nos perdíamos das horas
e reinventávamos o tempo.

Senti-te chegar
e o mar dos olhos inundou-me o sentir.

No peito o coração batia forte
e no descompasso da dor
gemia o lamento da noite.

Senti-te chegar na curva do amanhecer
e tu sentiste o beijo a florir-te na pele.

Deste-me a saudade
e eu dei-me a ti
por completo
ali mesmo
na curva do amanhecer.

©Graça Costa
imagem da web



terça-feira, 20 de setembro de 2016

CORPO POEMA

No teu corpo desenho poemas cantados .

A cada toque, a pele responde com um grito surdo,
meio gemido,
meio lamento
meio sussurro
meio tormento.

A cada beijo, reinvento-te,
reinvento-me,
saboreio-te como saboreio o poema,
letra a letra,
palavra a palavra,
rima a rima
ou rima nenhuma
mas lenta e suavemente
como tango dançado ao luar.

Depois,
volto e ler-te
e afago lentamente as palavras que te acendem a paixão.
e que te prendem a mim.

A ti me colo, meu poema
meio escrito,
por vezes gemido,
outras sussurrado,
e assim adormeço,
sem saber se durmo
ou apenas descanso
nesse teu colo feito cama,
só para me receber.

©Graça Costa
imagem retirada da web


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

ABRAÇA-ME APENAS

A brisa beija-me o corpo
com a suavidade de solista
em orquestra de anjos.

Da melodia,
soltam-se os sons dos sonhos
num amanhecer dourado 
e quando o sol desponta bebendo o orvalho,
sinto na pele o arrepio de acordar envolta no teu abraço.

Lá fora,
o sol de inverno,
frio e cortante,
contrasta com o calor
de um verão inventado
à medida deste sonho
criado a quatro mãos.

Por momentos,
retenho e perfeição da eternidade
e quero ficar,
só ficar.

Não…
não digas nada…
Abraça-me apenas…          

©Graça Costa
foto da Web


sábado, 17 de setembro de 2016

I DREAMT


I dreamt
my body was a lake
and your hands
sailing boats
dancing in the sunset of my skin.

I dreamt my body
was open sky,
and your mouth
a flock of seagulls
caressing its profile.

I dreamt my body
was a wide open road
and your arms
bunches of flowers
spreading perfume along the way.

I dreamt...
and I dreamt again.

When finally
awake,
you are right beside me.

We slightly smile...
and the dreams
come alive.


©Graça Costa



SE ESTES DEDOS TIVESSEM VOZ


Se estes dedos tivessem voz
seria de vento e de mar,
seria de brisa e de trautear o teu corpo,
com gemidos de mel
 e ternura de flores sem tempo nem estação.

Se estes dedos tivessem voz
suplicariam por violinos, harpas,
e lençóis de cetim orvalhados pelo teu perfume.
Suplicariam por pinceis e aguarelas para te pintar o perfil
e nele gravar o sentir do amanhecer nos teus braços.

Se estes dedos tivessem voz
gritariam pela tua presença dentro de mim,
pelo teu olhar preso no meu,
navegante eterno de paraísos inventados
e rotas por descobrir.

Se estes dedos tivessem voz
o amanhã estaria escrito.

O entardecer teria a melodia de uma sinfonia tocada a quatro mãos
e a noite traria consigo a magia dos rios
plena de afectos e desafios,
aberta para nos receber.

Caminhemos então…
e ouçamos,
que os dedos falam a língua dos amantes .


© Graça Costa
imagem da web




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

SOL DE OUTONO

Como gosto do sol de outono.

Como chocolate aveludado,
aquece sem queimar,
adoça os dias com a calma serena de uma nuvem de algodão.

Fecho os olhos e deixo-me levar
numa viagem sem destino,
nas asas de um sonho inventado,
pequenino,
só meu.

Sinto-me planar
para lá do horizonte,
para lá de tudo,
para lá de mim
e o sorriso que me invade,
suporta a certeza
de que nas asas dos sonhos,
o limite.
ah, o limite
nem sei se existe.


©Graça Costa



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DEVANEIO

Percorre-me o corpo como se fosse mar
e toca-me a alma como se fosses brisa.

Desperta-me os sentidos e torna-me tua.
Bebe-me.
Saboreia-me.

Entranha-me na tua pele
e nessa mescla do tudo e do nada
de excessos e devaneios,
façamos da noite uma melodia de afectos
languida e suave como o amor que termina e recomeça,
como maré
sem cessar.

E quando o cansaço for maior que o desejo
saibamos morrer…
entrelaçados,
exaustos pelo prazer vivido e pelo que há-de vir
quando o brilho do olhar
voltar a incendiar-nos a pele.


©Graça Costa
imagem da web


EM BUSCA DE TI

Vestida de brisa e neblina
parti em busca de ti.

Nos olhos levava as memórias
e nos braços os sonhos
tecidos em noites eternas
despojada de mim.

Mas, de repente, do nada
desaba o silêncio.
Brisa e neblina
recolhem-se de espanto
e ali fico
no esplendor da nudez
na súplica de ti,
no receio,
na fuga,
na entrega,
no sei lá...

Vem
que a noite engole-me o ser
e eu apenas preciso da tua pele
para me vestir de ti
e depois...
depois adormecer.

©Graça Costa








sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A ESPERA

Presa à saudade esperei a noite
em que o teu peito seria cama para o meu descanso.
Vesti-me de festa, com fios de ausência
e no esplendor da nudez
entreguei o corpo à brisa
que te traria até mim.
A brisa veio,
carregada de silêncios e presságios febris,
ao mesmo tempo que o sol morria
pintando o céu de vermelho sangue,
receios e sussurros magoados.
Quis sorrir, mas o sorriso morreu-me na garganta.
Só os olhos falavam
dizendo tudo o que eu não queira ouvir.
Fechei-os os olhos em prece
e do fundo do Ser, gritei à noite
que te trouxesse até mim.
Em sonhos, escrevi na pele
um daqueles diálogos só nossos
em que a magia dos corpos se torna sinfonia.
Esperei…
E só eu sei se vieste.

© Graça Costa