quinta-feira, 12 de maio de 2016

CREPÚSCULO

Carregava o crepúsculo no olhar,
quase fardo,
quase dor,
quase esperança.

Como numa melodia de saudade,
sussurrava palavras de silêncio
envoltas em lágrimas,
e seu corpo ondulava
como numa quase perfeita
imagem de oração.

Ela carregava o crepúsculo no olhar
mas, quando sentiu o apelo da noite,
deixou o corpo flutuar
como uma pena ao sabor da corrente.

Deslizou para o colo daquele anjo,
com os braços de ternura e pele de cetim
e ali ficou, saboreando o dia que adormecia

Cansaço.
Era tanto cansaço,
que as estrelas brilharam mais forte,
apenas para lhe  iluminar o sono.


©Graça Costa

                                                                Stefan Kuhn

segunda-feira, 9 de maio de 2016

ANDA

Anda…
Vamos inventar um caminho novo,
desenhado a aguarela, grafite ou pastel,
melodia, primavera,
doce e mágico como beijos roubados,
nas colinas da imaginação.
Anda…
dá-me a tua mão.
Deixa-me guiar-te neste mundo inventado
em que o corpo ganha voz,
a pele grita
e o olhar implora.
No teu olhar sinto a urgência das marés,
o marulhar dos afectos,
a fome por saciar.
Nas palavras por dizer,
pressinto histórias escritas por corpos vibrantes em noites frias de inverno,
ao som do crepitar das chamas,
com fundo de vento norte.
Pressinto a madrugada,
e assim fico …quieta e nua,
presa no limbo de poemas
sussurrados ao ouvido do amanhecer.
Pressinto,
espero…
e a espera é doce.
©Graça Costa


PROCURO

Procuro nos teus braços de luz
o calor que me foge do peito.

Enrosco-me em novelo
e bebo o calor da pele
como chá de jasmim adoçado com o mel da vida.

Procuro a doçura do beijo
a ternura do abraço,
o sabor do amor partilhado.

Procuro,
porque na procura me acho,
na procura me reinvento
cresço,
dou e recebo
luto e conquisto.

Por tudo isto, talvez,
apenas talvez,
mereça o calor dos teus braços.


©Graça Costa

                                                            Helena Wierzbicki

quinta-feira, 5 de maio de 2016

PROFECIA

Profético,
o sopro poderoso da fome
serpenteia-me o corpo envolto na bruma,
lacónico,
esfíngico,
quase prece
quase súplica.

Numa emergência de afectos por saciar,
procuro no teu olhar
a promessa da abundância
neste meu corpo feito terra lavrada.

Profético,
o Inverno de sementeiras
feitas pela tua mão.

Profética,
a linguagem universal do Amor,
quando arrancada das profundezas do SER.

Esteio do caos
perante o esplendor da vida
que começa a chegar ao amanhã.

©Graça Costa
imagem da web




DEIXA

Deixa
que a noite invada o horizonte das memórias,
e os dias sejam de eternos recomeços,
ainda que errantes ou incertos.

Deixa
que os teus passos me sigam
e que a paixão seja a melodia
dos caminhos por inventar.

Deixa
que o meu corpo seja tela virgem
para o arrojo dos sentidos
e lê nos meu rosto
o te digo no silêncio do olhar.

Deixa-me correr ao teu encontro
com a certeza que de sabes o que fazer
para a alma se sentir beijada;
com a certeza de que basta um olhar
para o arrepio da pele,
para a fusão dos corpos em chama.

Deixa-me sentir…
apenas sentir,
meu pintor de corpos e telas,
paixões libertas,
e momentos eternos,
gravados em segundos.

©Graça Costa




quarta-feira, 4 de maio de 2016

BEYOND WORDS

Dancing with the moonlight I was
when a scent of you
invaded my skin.

That unspeakable feeling
led me to a magic world of tenderness and affection
in which I give myself to you
and you give me back my all
shining like a star.

I arrived gently,
touched you slowly,
kissed you deeply,
grabbed your hands,
and led them to my skin on fire.

Heard you.
Your breath stopped.
You shivered of expectation,
your eyes seemed a lighthouse
and I just whispered at your ears:
I'm here
make me yours.

Heard you weeping
and your tears and lips
painted my body
with pleasure beyond words.


©Graça Costa

                                                            Joshua Miels

ONDE A SOLIDÃO TERMINA

Deixaste-me na boca um sabor a espanto,
e na pele a súplica do desejo inacabado,
a fome de mais,
que o dia levou.

Deixaste-me no olhar um sopro de maré viva,
uma tempestade de afectos incontidos
clamando pela noite,
ou apenas pelo som dos teus passos na escuridão.

O dia passa,
lento e soturno
mas dentro de mim bate o sol.

Com lábios de silêncio
e o paraíso no olhar,
deixo o fogo envolver-me
na espera do tanto que te quero.

No horizonte o dia cai,
deixando no ar promessas guardadas
do ontem que não chegou a ser.

Espero-te,
para que me abraces onde a solidão termina,
e me envolvas no rendilhado dos dias sonhados
antes do amanhecer.




©Graça Costa

                                                                     Agnes Cecile


terça-feira, 3 de maio de 2016

RECEITA PARA UMA VIDA ROUBADA

Um dia roubaram-me a vida e eu não percebi.

Entrei no hipnótico caminho da dor
com a leveza de uma bailarina em pontas,
sem ver que, com o passar dos dias,
os pés, tal como a vida, começavam a sangrar.

Depois, parei e pensei :
um dia esta dor ainda me vai ser útil
e deixei-a engrossar, como torrente de lava encosta abaixo.

No desamparo do silêncio das noites em branco,
alimentei a ira e o desencanto;
derramei as lágrimas caladas durante os dias que corriam velozes,
como velozes nasciam as marcas no rosto e os fios de prata no cabelo.

Depois, um dia cresci.
Libertei a ira e resgatei do fundo de mim
o efémero sentir dos humanos.

Despertei do torpor de uma alma esfiampada
e lenta,
mas persistentemente,
lancei-me na reconstrução de mim.

Hoje, sou barro moldado por mãos hábeis, serenas e ternas.
Na plasticidade dos dias,
cresço e renasço com cada janela de esperança que abro.
Junto-lhes alguma loucura,
adiciono uma pitada de desejo,
e deles retiro
o meu pão,
o meu mel,
e o sal com que tempero
o tempo que resta.


©Graça Costa



segunda-feira, 2 de maio de 2016

PRECE

Doce a noite quando me enrosco nos teus braços.
Em paz,
a pele murmura melodias de terras distantes
e a paixão flutua por campos silvestres
qual ave do paraíso.

Doce,
o toque dos teus dedos
a textura quente, húmida e suave dos teus lábios
percorrendo o meu corpo como marés.

Vem, noite.
Vem testemunhar a magia destes corpos,
que de tanto se amarem  se tornaram maresia.
Vê como se mesclam com as estrelas
e sussurram ao amanhecer.

Vem.
Ouve o seu lamento gritante
o desespero da perda
e pede ao vento  que anda por perto
que lhes conceda o milagre
dos eternos começos.


©Graça Costa


                                                     Maria Magdalena Oosthuizen

SOMENTE

Pena,
brisa,
arrepio,
sussurro.
O que eu sou
quando os teus lábios tocam a minha pele?

Não sei.
Não ligo.
Só quero sentir
a melodia da paixão a atravessar-me o corpo,
crescendo como tempestade em dias de verão,
quente como raios de sol,
doce como sonhos,
memórias ou palavras
faladas ao ouvido pelo amanhecer.

O que eu sou,
quando o amor fala mais alto que sentidos?
Quando os olhos amaciam as palavras não ditas?
Quando os dias são bênçãos
de expectativa e esperança,
medo, melancolia
e a magia indescritível
de viver na ponta dos teus dedos?

Não sei.
Não ligo.
Só quero sentir.

©Graça Costa