quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

FOME

Sinto na pele a fome do teu abraço;
o calor das palavras ditas entre o beijo e o outro beijo,
entre o sussurro e o grito,
entre o olhar e o sorriso
entre a entrega e a solidão.

Fome também das palavras...
das ditas e das por dizer;
das sentidas e das gritadas
das largadas ao vento e das presas nos raios de sol,
das gemidas e das inventadas,
pérolas displicentes,
esperando o momento.

Gosto desta fome e alimento-a de mais fome,
pois é da dor que nasce o poema,
e do poema nasce a paixão
com que pinto os dias que passo sem ti.

Pincel ou grafite,
aguarela ou esquisso,
pouco importa.

A fome tem muitas cores...


© Graça Costa

                                                        Sarah Elizabeth Lakey


SE

Se a chuva te lamber o rosto,
despe-te de tudo o que é dor,
das angustias,
dos temores,
dos sonhos adiados ,
da fúria,
do desencanto,
despe a roupa,
despe a alma,
e no esplendor da nudez
recebe as gotas da chuva,
como pérolas
no teu corpo.

Depois.
dá-as a beber
qual elixir de esperança,
num amanhã
por inventar.


© Graça Costa
imagem da web


DOS MEUS OLHOS

Falavam uma língua estranha aqueles olhos...
ora esmeralda
ora avelã azeitona de Elvas.
Falavam de afectos esquecidos,
memorias adormecidas,
sonhos perdidos nos confins da memória.

Talvez fosse medo...
medo de falar e não serem entendidos,
medo de gritar e serem acorrentados,
medo de sussurrar e ninguém ouvir...

Falavam, por isso aquela língua estranha,
a dos que ousam ter no peito
um coração que bate ao ritmo da neve numa noite de inverno,
dos que usam a melodia do amor
para soletrar as palavras que aqueles olhos falam,
mesmo quando dos lábios só ouvimos,
o embalo do silêncio.


©Graça Costa


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

VONTADE

Existe no silêncio
um luar de nuvens mansas
uma alma secreta de murmúrios vestida
uma doçura tamanha,
que só de o prever já me embalo
do seu sentir.

Só quem conversa com o silêncio
tem alma para sentir o poema
que antes de o ser já dança na retina
já penetra a pele com a intensidade de um beijo
e desperta a fome do amor vivido em firmamentos distantes.

Oxalá a noite me doure os sentidos,
me crave na pele a vontade de me dar
e que o canto da minha voz, não seja voz
mas pele…
sedenta de outra pele.


©Graça Costa

                                                             Solly Smook

DESTINY


I knew we were bound
long before we met.
Deep inside I felt your love
as a feather caressing my soul
and your voice whispering
smoothly in my skin
an unwritten song
floating in time
waiting for our embrace.

I knew we were bound
long before we met.
Fate put you in my path
in the most unexpected way
when days were grey
and nights were stormy.
You came and I was frightened.
Still, I've let you in...
bath myself me in your scent
and allow sparkles of happiness
to enlighten the room.

Love flew
like tides in summer nights
and I …
I did surrender to your smile.


©Graça Costa


GOSTAVA DE TE DIZER

Gostava de poder dizer-te 
que o amor que sinto é do tamanho do universo,
mas não posso...
O universo pode ser demasiado pequeno e tenho receio de errar.
Gostava de poder dizer-te que o desejo que sinto
tem a magia de uma manhã clara,
mas nunca fui manhã e não sei definir essa magia.
Gostava de poder dizer-te que a felicidade é eterna,
mas sei que não é...
tal como sei que as palavras que escrevo
são apenas letras pintadas de emoção embrulhadas de cetim.
Por isso não te digo o amor que sinto.
Deixo que o descubras
e que o digas por mim.

©Graça Costa


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

FELICIDADE

Da felicidade já interiorizei
a sua fragilidade,
assimilei a subtileza do seu toque,
a ternura da sua chama,
a suavidade do seu abraço,
a efemeridade do seu amanhecer.

Feito isto,
dela apenas posso desejar,
que dure o suficiente
para se tornar memória.

©Graça Costa




SEM AVISO

Quase sem aviso
o beijo aconteceu.

Como poema calado
cresceu lentamente,
maré mansa,
que vira fogo
ateado pela urgência do desejo.

Perdido na ponta do medo
surgiu assustado
mas logo se agigantou
explorando os sentidos
com mestria de escultor
e delicadeza de tela pintada a pastel.

Colou-me na pele pigmentos carmim,
sugou-me a alma e o sentir,
tornou-me amante insuspeita
de dias calmos e noites errantes
em que apenas o desejo tem voz.

E do beijo nasceu a entrega
e da entrega, a melodia dos corpos em chama...
poema vivo,
salpicado por gotas de mar,
em tons de êxtase .

© Graça Costa

                                                           Matteo Arfanotti

IMPROVÁVEL

Frio, cinzento e chuvoso
o dia trazia consigo o prenuncio de tristeza.

Frios e tristes
também os olhares dos transeuntes
que abraçados em si mesmos
pareciam querer guardar para a eternidade
uma réstia de calor ou de esperança num pequeno raio de sol.

No ar, uma aura de estranheza
sufocada pelo vento bruto,
agreste,
mandão.

Naquele dia que acordou frio e triste
nada fazia prever
que o horizonte do fim da tarde
fosse envolvido
por aquele quente, delicado e hipnótico calor.

E foi então que o improvável aconteceu.

O dia transmutou-se,
através do simples olhar de uma Mulher.


©Graça Costa


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

NO TEU OLHAR

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Sem saber como defini-lo
estendi-lhe o sorriso e bebi-o,
lentamente,
em silêncio,
como ritual sagrado.

Saboreei cada trago
com a dolência da paixão imprevista.

Deixei-me levar pelo arrepio da eternidade do momento.

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Vieste sem aviso mas com a força de uma maré viva
e eu recebi-te com a ternura de uma onda a beijar a areia.

Sem saber como te responder,
vesti-me de lua
coloquei nos cabelos pétalas de orvalho
e dei-me ao teu olhar em oferenda.

Depois anoiteceu…
e a noite é cúmplice de amantes inquietos.


©Graça Costa
imagem retirada do Pinterest