quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O BEIJO


No dedilhar do piano
imaginei o beijo,
doce,
carnudo,
sumarento como amora madura
degustada à beira do mar.

Fechei os olhos
e no embalo das notas
o beijo ganhou forma,
límpida e cristalina como gota de orvalho
no despontar do amanhecer.

Com o beijo nasceu o sorriso,
e com o sorriso o abraço
e com o abraço o enlaço.

Sereno e algo travesso estampou-se no rosto
percorrendo o corpo,
com a inocência
de uma primeira vez.

© Graça Costa






NA MINHA PELE

Ontem vesti-me de noite para me esconder da escuridão.
Hoje, apenas de pele para me perder na tua mão.

Quando a alvorada romper a noite
e a pele continuar pele,
que a tua mão será para ela cama
ternura,
afectos em chama.

Fica...
Embala-me o sono
toca-me o rosto em tom de abandono
mas fica...

Fica...
porque a pele chama
e o corpo reclama,
a tua pele
perdida na minha pele.

©Graça Costa


CONTINUAR

Aquela fusão de céu e mar
trazia-lhe uma espécie de paz,
qual mantilha de felpo
macia,
aromática,
pontilhada de maresia e caramelo.
Naquela paisagem sem fim
passeavam pedaços de si.
Primeiros passos,
primeiros risos,
sons,
cheiros,
matizes de outros verões,
outras vidas.
outras canções.
Havia naquele lugar um quê de verdade,
um quê de ternura,
um quê de emoção
que lhe humedecia o olhar e lhe aquecia o coração.
Naquela paleta de tons de azul
descansava sempre que se sentia só.
Por isso voltava,
repetidamente voltava,
e naquela fusão de céu e mar
bebia, de um trago
a coragem para continuar.
©Graça Costa


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

APENAS

Abraça-me como se tudo estivesse no principio
e os teus dedos tocassem a minha pele pela primeira vez.

Apura os sentidos e decora-me o cheiro e o sabor.

Lavra-me o corpo de terra orvalhada
e planta-me a chuva no rosto
e as sementes da paixão na pele.

Depois espera...
contempla como o teu olhar se insinua,
perante o banquete de aromas, texturas e sabores
que o meu corpo te oferece.

Sacia-te neste campo de frutos silvestres
neste mar de coral
nesta fonte de água fresca.

Ou então...
abraça-me apenas.


©Graça Costa
imagem da web


FEEL ME

Run through the streets of my body
as if it were your town.
Find out the details of regret.
Board on the destination you deny,
but you can't avoid.

Feel me ...
Engage yourself in the heat of the skin,
in the groans that night silences
and the sea breeze consent.
Dare smiling to the unknown who calls you.

Hear me,
between the silence and the shout.
Learn with me speechless feelings.
Lets Invent a new language,
serene and fluid like the glitter look,
after love shared
on the turning of the tide.


©Graça Costa
image from web


AMANHECENDO

O amanhecer trouxe-lhe à retina, memórias dos tempos em que o tempo não tinha tempo e a vida era vivida ao segundo, com a intensidade de um nunca mais.

Sentiu saudades desse tempo, em que tecia o tempo com mãos de amante e olhos de artista;

em que no silêncio da noite compunha a quatro mãos sinfonias com os tons quentes e suaves de outonos dourados e o sono era embalado pelas carícias que só o amor cúmplice reconhece.

Nesse amanhecer, enquanto o sol rasgava a aurora, sentiu o aroma familiar do amor recente e ficou um pouco mais, saboreando o alimento dos sentidos e a magia do dia que nascia.

Beijinho da Graça


©Graça Costa



RETRATO DE UMA PRIMAVERA ANUNCIADA

Olhos de mirtilo,
boca de romã
pele de damasco,
sabor de amora, jasmim, canela e hortelã.

Deleite para os sentidos,
só de olhar
mata sede,
atenua fome,
aguça desejos inconfessáveis.

Imagino-a
com a sua paleta de cores, sorrisos e aromas,
com a sua gaiatice sensual,
chamando por alguém
apenas com o olhar.

No seu dossel de veludo e cetim,
despida dos encantos frutados,
pele serena e marfinada
entra suave e leve no mundo dos sonhos.

Sonhos sonhados,
decantados,
filtrados pela miragem
do amor em construção.

Com ela guarda os segredos da pele
que fala a língua de um amanhã sem hora marcada.

Linguagem subtil...
com um toque de canela.


©Graça Costa


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

AO OUVIDO DO AMANHECER

Anda…
Vamos inventar um dia novo,
desenhado a aguarela ou a pastel
melodia ou primavera,
doce e mágico como beijo roubado,
nas colinas do sonhos e da imaginação.

Anda…
dá-me a tua mão.

Deixa-me guiar-te neste mundo inventado
em que o corpo ganha voz
magia e sedução.

No teu olhar sinto a urgência das marés,
o marulhar dos afectos, 
a fome por saciar.

Nas palavras por dizer,
pressinto  trilogias escritas a quatro mãos
ao som do crepitar das chamas
e dos corpos suados pela paixão.

Pressinto a madrugada e o calor da tua boca
e assim fico
quieta e nua,
presa no limbo de poemas sussurrados,
ao ouvido do amanhecer.


©Graça Costa



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

AMA-ME

Ao longe
a sombra de um corpo nu invadia o espaço de promessas.

Sabia o teu olhar preso em mim
e derretia-me por dentro,
antes mesmo do sabor do beijo
ou do toque suave dos dedos.

Sentia, mas não pedia nada.
Alimentava o sonho
com suaves movimentos do corpo,
como que dançando,
num convite subtil a devaneios e sonhos
vividos ou ainda por viver.

Sinto-te os passos
flutuando em direcção ao meu abraço.

Sinto-te,
mas não te quero ver...
apenas sentir,
abandonar-me em ti
qual naufrago em porto seguro.

Ama-me.

Liberta-te dos medos do amanhã que pode não vir
e ama-me,
até que a noite ceda
ao cansaço dos sentidos.

 ©Graça Costa

                                                              HENRY ASENCIO

CONVERSANDO COM O SILÊNCIO

Existe no silêncio
um luar de nuvens mansas
uma alma secreta de murmúrios vestida
uma doçura tamanha,
que só de o prever já me embalo
do seu sentir.

Só quem conversa com o silêncio
tem alma para sentir o poema
que antes de o ser já dança na retina
já penetra a pele com a intensidade de um beijo
e desperta a fome do amor vivido em firmamentos distantes.

Oxalá a noite me doure os sentidos,
me crave na pele a vontade de me dar
e que o canto da minha voz, não seja voz
mas pele…
sedenta de outra pele.


©Graça Costa