sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A VOZ DA ALMA

Porque é que quando ponho a alma a falar ela chora ?

Chora lágrimas diamante,
cristalinas, preciosas,
como a seiva de vidas vividas e de outras por viver.

Tem dias em que a alma chora, sorrindo.
Acaricio-a…
e em seu torno construo jogos de prazer e ternura,
prenúncios de fim de tarde dentro do peito encerrados.

Lágrimas são vida,
arte e poesia,
inquietação repentista,
emoção,
abraço, silêncio, calma,
vento, uivo, furação.

Não sei porque choras alma,
mas no meu egoísmo brando te peço…
nunca deixes de chorar,
pois do teu alimento preciso
para continuar a voar.


©Graça Costa

                                                                       Loui Jover

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ESPERANDO POR TI

Por entre a neblina bebo o teu perfil
sereno e brando como brisa de outono,
quente e suave como sol ao encontro do anoitecer

Imagino a minha pele cantar pelo teu toque
e quase consigo sentir
a fome da tua boca em busca da minha boca.

Não sei se fogueira ou fonte,
medronho ou água mel,
arrepio ou fogo na pele.

Nas tuas mãos sou barro
acabado de arrancar às entranhas da terra,
mosto aquecido,
vulcão adormecido,
desejo em convulsão.

Chamo-te...
só o brilho do olhar.

O vento entende o meu sorriso
e leva o teu nome até aos confins do ser.

Aguardo…
e a espera é doce.


©Graça Costa

                                                                      Jarek Kubicki

FICA

Bebe-me os sentidos
como se fosses brisa e eu fosse mar.

Saboreia-me a pele
como se fosse mel
e derrete-te nos meus olhos.

Deixa que a madrugada me inunde o Ser
e o dia surja com a serenidade de uma melodia primaveril.

Deixa...
mas fica,
que o corpo pede e a alma exige
a perene entrega dos corpos em chama.

Deixa-te ficar no meu corpo feito luz,
no meu peito feito cama
e quando o sono vier...
dorme...
mas fica dentro de mim

©Graça Costa


                                                                   Sylvie Guillot

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

MOMENTOS

Há momentos que valem vidas.
Pela intensidade,
a magia,
a inconstância,
a doçura,
a leveza,
o carinho
e por vezes, até mesmo a dor.

Há momentos que valem vidas,
pelas marcas que deixam na pele,
na retina,
na alma,
no peito...
memórias que o tempo não mancha 
nem o futuro apaga.

Momentos...

Fragmentos de vida vivida em segundos,
partículas de paixão
gravadas nos sentidos como tatuagens.

Momentos...
efémera eternidade
guardada na palma da mão.

©Graça Costa

                                                                   Sladana Zivkovic

SHELTER

Lost in the horizon of dawn
our night became a shelter of treasures.
Unspoken,
unquestioned,
but lived,
so intensely and so deeply
that the strength of day,
asked permission to arise
and covered our naked bodies
with the caress of hot dewy moss.

©Graça Costa



                                                                   Dorina Costras

AQUI ESTOU

Aqui estou,
no desejo do que sou
e no que ficou depois de ti,
enroscada no lamento da esperança
que morreu antes de ser mar.

Aqui estou,
com a sede à flor da pele
e a fome escondida na razão que já não é.

História por escrever, ainda que sonhada,
por viver, ainda que já sentida,
desenhada na aurora desflorando a noite.

Aqui estou nesta travessia de mim,
em busca do nós que já fomos
e do amanhã que inventamos,
em cada amanhecer.

Aqui estou,
no esplendor da nudez do fim da tarde
esperando a magia do toque,
da tua,
na minha pele.

©Graça Costa



terça-feira, 6 de outubro de 2015

PERFUME DE POESIA

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Sem saber como defini-lo
estendi-lhe o sorriso e bebi-o,
lentamente,
em silêncio,
saboreando cada trago
com a indolência da paixão imprevista
e deixando levar-me pelo arrepio do momento.

Encontrei um perfume de poesia no teu olhar.

Vieste sem aviso
com a força de uma maré viva
em noite de invernia
e eu recebi-te...
com a ternura de uma onda a beijar a areia.

Sem saber como te responder,
vesti-me de lua
coloquei nos cabelos pétalas de orvalho
e dei-me ao teu olhar em oferenda.

Depois anoiteceu…
e a noite é cúmplice de amantes inquietos.

©Graça Costa


                                                                  by Agnes Cecile

EM VIAGEM

Parti em busca de mim
e nesta incessante busca
encontrei-me nos sítios mais improváveis.

Vi-me numa gota de orvalho,
numa papoila baloiçando na beira do caminho,
numa carícia feita no teu rosto ao acordar.

Nesta busca de mim,
em que o ontem e hoje se misturam,
percebi que dar não implica receber,
que amar não significa ser amado,
que a solidão pode ser felicidade
e companhia pode ser saudade.

Parti em busca de mim
e no esplendor da nudez
vi-me rodeada de afectos vividos
e de outros em construção,
despertando ao ritmo do bater do coração.

Nesta jornada sem principio nem fim,
dissolvo-me em sorrisos e prantos
fecho os olhos e descanso.

Na voz trago o fogo e a luz que as palavras não conseguem descrever.
Por isso as transporto nos olhos
e na forma como me dou,
para que as consigas decifrar.

Parti em viagem dentro de mim esperando chegar até ti
e nessa esperança terna e serena,
deixei o silêncio ser a voz do nosso encontro.


©Graça Costa




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

NA BEIRA DA NOITE

Aquele beijo,
tinha o sabor encantado das palavras não ditas;
tinha a doçura da fruta madura
e a ternura de um pôr do sol prateado à beira mar.

Aquele beijo,
tinha o querer e o não querer,
o vazio e a plenitude,
a intensidade do nascimento
e o poder de uma paixão,
apenas ainda sonhada

Aquele beijo,
tinha o aroma a chocolate quente
e a beleza de uma buganvília lambendo uma parede branca,
tal qual como neve em pleno verão.

Aquele beijo
foi o principio e o fim
de qualquer coisa por inventar,
que espera na beira da noite
a luz para caminhar.

©Graça Costa


DEPOIS

Trazia o outono nos cabelos
e um prado de erva fresca no olhar.

Caminhava como se trouxesse o luar nos pés,
iluminando o caminho
e semeando sorrisos.

O corpo nu,
convidava ao deleite de noites de verão
embaladas por brisa suave
e choro de guitarras.

Entreguei-me ao entardecer,
como se pudesse parar o tempo
e sussurrei o teu nome ao vento.

Foi então que chegaste
e me cobriste o corpo de beijos
com a fome dos dias longos
e das noites por inventar.

Dei-me de novo
como da primeira vez,
sem medos nem dúvidas,
toda alma,
todo corpo,
toda luz.

Depois da explosão dos nossos corpos em chama,
enrolei-me no teu corpo de mel
e deixei o sono levar-me
até ao mundo dos sonhos e das memórias.

Sereno...
o sono depois do amor.


©Graça Costa

                                                             Timothy Rees