quarta-feira, 23 de setembro de 2015

FAÇAM SILÊNCIO

Façam silêncio...

Vejam o poema que nasce
naquela boca carnuda
como morango silvestre em pasto verde.

Vejam a forma como se move,
como insinua o beijo sem o dar,
como inflige dor sem tocar,
como aguça a fome sem falar.

Vejam como as palavras são excessivas,
perante uma gota de suor
descendo pelo peito,
para morrer subtilmente onde a vida começa.

Sintam a magia de uma alma consumida pelo fogo de paixão
libertando-se das amarras
para com ela escrever a melodia de um refrão.

Sintam…
mas façam silêncio
que a obra nasce sem ser pedida,
e as  palavras
são apenas o tempero colorido dos sons
com que pintamos as telas da vida.


©Graça Costa

                                                                  Rico Blanco 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

ALMOST A PRAYER

Blessed the hands
who dried my tears.

Blessed that soft touch
that calms my sadness.

Blessed that angels voice
almost music, almost whisper.

Blessed the kiss,
the gentle touch of the lips,
the sweet caress
that made my blood sing,
the breath whispering,
the senseless words.

Blessed the day
our eyes crossed.
Blessed that magic fragment of time
our hearts stopped
and our skin burned of desire and mute pleasure.

Blessed that day and all the days since then,
and bless also
all the nights,
yet to come.


©Graça Costa

                                                     Yuriy Ibragimov

DOEM-ME AS PALAVRAS

Doem-me as palavras como feridas abertas.
Gritam.
Gemem.
Sussurram.

Queimam-me o peito e afogam-me o olhar.

Sinto a alma jorrando lava,
escorrendo lenta e penosamente pelo peito
onde momentos antes os teus lábios descansavam
e o teu corpo se derretia no meu.

Doem-me as palavras,
por isso as partilho na voragem dos dias inquietos
na esperança que alguém as faça suas.

Olha…
Vê como os olhos soletram a dor do sentir.

Vê como te chamam,
a ti,
balsâmico amante
de corpos e letras.

Vem,
lambe-me as feridas
e faz com que as palavras renasçam
entre a brisa e o arvoredo da paixão.



©Graça Costa

                                                                        Graffmatt

DEIXA

Deixa
que a noite invada o horizonte das memórias
e os dias sejam eternos recomeços,
ainda que errantes e incertos.

Deixa
que os teus passos
sigam as minhas pegadas
e que a paixão seja  melodia
de caminhos por inventar.

Deixa
que o meu corpo seja tela virgem
para o arrojo dos sentidos
e que consigas ler nos meus olhos
as cartas que te escrevo no silêncio das madrugadas.

Deixa-me correr ao teu encontro
com a certeza que de sabes,
exactamente como me tocar
e a alma sentir-se beijada;
com a certeza de que basta um olhar
para te sentir dentro de mim,
meu pintor  de corpos e telas,
de paixões incertas
e momentos eternos,
gravados em segundos.


©Graça Costa

                                                          Arthur Braginsky

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

TANTO PARA DAR

Amarra-me ao teu peito
para que o tempo não me roube de ti.

Cobre-me de luz e de esperança.
pinta-me o rosto de beijos maduros e generosos,
como as uvas dourados de Outono.

Amarra-me ao teu peito
e fica dentro de mim,
para que o tempo seja tempo,
mas não ladrão do meu Ser.

Sem ti os dias não nascem
e quando nascem,
não têm cor nem sabor
ou algo que me faça sorrir ou esquecer.

Amarra-me ao teu peito, meu amor
e espera na vereda da tarde
a hora dos dias sem hora marcada.

Espera...
e leva-me contigo
porque a vida corre veloz
e temos ainda tanto para nos dar.

©Graça Costa


                                                                Charles Dwyer

PROFECIA

Profético,
o sopro poderoso da fome
serpenteia-me o corpo envolto na bruma,
lacónico,
esfíngico,
quase prece
quase súplica.

Numa emergência de afectos por saciar,
procuro no teu olhar a promessa da abundância
neste meu corpo feito terra lavrada.

Profético,
o Inverno de sementeiras
feitas pela tua mão.

Profética,
a linguagem universal do Amor,
quando arrancada das profundezas do Ser.

Esteio do caos,
perante o esplendor da vida

que começa a chegar ao amanhã.

©Graça Costa

                                                            Federico Bebber


O QUASE

Incomoda-me o Quase,
a sua inconsistência,
a sua fraqueza, a forma inquieta como se esconde,
o que podia ter sido e não foi.

Incomoda-me o Quase.
Quase fui.
Quase fiz.
Quase consegui.
Quase amei.

Que quase é este que nos tolhe o sentir,
que me rouba a plenitude do Querer.

Incomoda-me o Quase
e por quase me sufocar
descarto-o do meu sentir.

Quero a plenitude do todo,
o excesso da entrega,
a loucura do desejo,
a quase morte do êxtase.

Quero, não ter medo de sentir
não ter medo de ousar
ter alma e corpo e pele
para ser e para dar.

Incomoda-me o Quase...
Quase, não é suficiente .

 ©Graça Costa

                                                                Marco Grassi

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

PORQUE ESCREVO

Escrevo
porque as palavras não chegam para o que sinto…
são pequenas e banais
gastas,
supérfluas ,
incoerentes, frugais
e eu preciso delas fortes,
intensas, enormes,
eruptivas,
terapêuticas,
balsâmicas.

Escrevo porque as palavras que tenho para ti não têm nome.
Trago-as embaladas  no peito,
presas  na garganta, 
gravadas na pele,
como gotas de suor após a tenaz luta do amor.

Escrevo com a alma nas mãos
esperando que me estendas as tuas,
que me agarres ,
que me envolvas,
que me penetres os sentidos
com a emoção da aurora rompendo o dia.


Escrevo,
porque os meus olhos estão mudos
e a boca grita silêncios vários.

Só estas mãos insistem em riscar o papel
na implacável dança de aromas e sons com que construo os dias.

Escrevo para que me recordes assim,
despida de tudo,
despida de mim,
barro nas tuas mãos,
mosto por fermentar,
maresia, mar e noite
paraíso,
frenesim...

©Graça Costa

                                                                   Pablo Picasso






QUANDO

Quando no teu corpo me dissolvo
descubro  sabores inesperados.
Menta, canela,
pimenta, chocolate,
hortenses, rosas carmim.

Neles viajo,
vagabunda errante
imersa no êxtase hipnótico que a tua pele me estende.

Não sei se fuja ou ouse desafiar os limites deste corpo,
que conheço e desconheço,
que me chama e me recusa,
que me engole e me saboreia
como fruta fresca em manhã de primavera.

Quando no teu corpo me dissolvo
a ternura consome-me o ser.

Entrego-me por inteiro,
fusão de mar e lua,
magia e travessura
no anoitecer que abraçamos
e com tanto por inventar...

©Graça Costa

                                                                    Marilyn Kalish

THE KISS

 I like the kiss that did not give ...
the imagined kiss,
drawn in the most deep corners of the mind.

I feel its smell and its taste,
texture,
heat
smoothness.

Insinuating…
the kiss that I did not give.

Magical,
as everything already dreamed,
but yet unborn.


©Graça Costa


                                                          Sculpture - Gaylord Ho