segunda-feira, 20 de abril de 2015

FLUTUO

Flutuo na melancolia dos dias incertos,
no misterioso encanto da procura
e descanso no teu colo
quando a fadiga me invade o corpo e os sentidos.

Flutuo...
Procuro no outono da vida
a serenidade do trigo ondulando ao entardecer,
liberto-me das grilhetas do sentir
e sorrio de peito aberto à descoberta de mim
perante os teus olhos atentos
e a mestria delicada das tuas mãos.

Não sei se algum dia mergulharei na aurora boreal dos sentidos,
mas insisto em vestir-me de luz e mel,
soletrar melodias de tempos distantes,
algumas ainda por inventar,
derreter-me no teu corpo
e renascer com o entardecer.


©Graça Costa


TOMEI A NOITE NAS MÃOS

Tomei a noite nas mãos
e fiz dela cama
da nossa pele em chamas.

Desespero de alma
em busca do brilho no olhar
que nasce das entranhas do Ser
até se tornar fome por saciar
ou fonte de água fresca
para a tua boca.

Tomai a noite nas mãos
e deixei-me navegar no teu corpo feito mar,
no teu mel a transbordar.

Do olhar fiz o poema
e do poema a magia das noites eternas
em que da fusão dos corpos
explode a luz das manhãs
em horizontes distantes.

©Graça Costa

                                                                     Jessica Durrant 

domingo, 19 de abril de 2015

NA MINHA PELE

Bebe-me o néctar da vida
e perde-te na minha pele.

Que o desejo seja chão
e a paixão o enredo
de uma peça em dois actos
de começos e recomeços.

Perde-te dentro de mim
para que eu sinta que sou o teu lar,
ou a tinta 
com que pintas no meu corpo
 as palavras do poema por inventar.

Que ele nasça
em forma de dança lenta 
de corpos, dedos, gemidos
e olhares perdidos na escuridão.

Que venha com  maré dos sentidos
e se torne sonho,
prenúncio de abandono
da minha 
na tua pele.


©Graça Costa



sexta-feira, 17 de abril de 2015

NEED TO REST


My love i need to rest,
but rest is an extension of your smile,
a mixture of your lips in my skin and your arms around my neck.

My love I need to sleep
but sleep are nightmares without your shoulder as a soft tender pillow.

My love…
ask for my autumn leaves dress so full of memories.
See how each one of them have a story to tell
and a smell of honey inside each letter.

Let me go …
to those far horizons
where the feelings have no name
and language is the softness of the skin,
the bright shine of the eyes
and the purchase of passion in every breath.

My love…let me go
but please lead the way.
Once we arrive
i will feed you with my autumn leaves dress,
till my nudity explodes in your arms.
Then I’ll be complete
and I can rest.


©Graça Costa

NA TUA AUSÊNCIA

Perdi-me na tua ausência 
e nela teci labirintos de dor,
malhas de tristeza,
ilusões de ternura quase esquecidas.

Perdi-me na tua ausência
e nela construí telas de alabastro carmim,
como feridas abertas
em peito nu.

Perdi-me na tua ausência 
e nela vagueio
como naufrago em ilha virgem.

Na tua ausência
torno-me poema,
lamento,
canção,
estrada sem rumo,
fúria,
grito,
convulsão.

Perdi-me na tua ausência
e colei-a na pele 
como tatuagem.

Com ela vivo,
por ela respiro,
a ela me dou...
e sorrio...
porque sei,
que andas por perto.

©Graça Costa


LIBERTAÇÃO

Soltei-me do manto negro da dor
e parti rumo ao alvorecer da esperança,
Rubro,
intenso,
generoso,
como generoso
o abraço que pressinto no teu olhar.

Soltei-me do manto negro da dor
deitei-me na vereda do sentir,
deixei o sol matizar-me a pele
e os teus dedos fazerem dela
tela de uma primavera anunciada.

Do manto negro
fiz céu
e nele plantei as estrelas
que hoje me brotam dos olhos
e me iluminam o ser.

Soltei-me do manto negro da dor
e do meu corpo fiz chão
para beber a chuva do teu.

Bênção do amor feito promessa.
Sementeira de afectos
corpo aberto à fruição.

©Graça Costa

                                          Maria Morales; Oil, 2010, Painting "Celebration" 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

MAGIA DA NOITE

A noite fecha a porta
e o nosso mundo transforma-se.
Os olhares cruzam-se
a brisa sussurra
e o fogo levanta.
Há um sabor a fusão de corpos
na boca e no chão,
coberto de flores
pela tua mão.

Vida vivida ao segundo
quanto te tenho por perto.
Toda eu sou alma,
lamento,
grito,
chama,
ternura aos pedaços
eterna...

Alquimia dos sentidos
na curva do fim da tarde,
quando a noite fecha a porta
e eu me dou por inteiro.

Memórias da espuma dos dias
gravadas no arrepio da pele
molhada pelos teus lábios
brilhando...
como estrela perdida nos céus...

©Graça Costa



ASKING FOR A MIRACLE

Sweeter is the night when I hold you in my arms.

Peaceful,
the skin mumbles melodies from distant lands
where passion flutters in wild fields
as the bird of spring.

Sweet touch of your fingers
and the hot wet texture of your lips
running through my body like tides.

Come sweet night ...

Come witness the magic of these bodies made water
by loving one another for so long.
See how they melt,
and how they glide at night
mingling with the sea air and the stars in the sky.

Hear their moan,
and please...
ask the dawn that rises
the miracle of rebirth
just to see them once again.


©Graça Costa

                                                                   by Irina Karkabi

quarta-feira, 15 de abril de 2015

AQUI ME TENS

Aqui me tens
de cara lavada e alma nua.
Aqui me tens ,
resplandecente de esperanças e memórias,
gritos surdos na garganta
e melodias no olhar.
Aqui me tens,
com o desejo à flor da pele
e uma girândola de afectos
pendurada no peito.

Ama-me como fores capaz.
Liberta-me das noites sem luar.
Polvilha-me o corpo de estrelas cadentes
e quando ela morrerem no horizonte,
que a tua boca seja o guia  da noite,
e o meu corpo
a tua bússola, barco e leme
numa viagem só de ida.

Aqui me tens
neste mar revolto dos dias agrestes
em que sou tranquilidade de tardes de outono,
paredes meias
com a noite que teima em não me ver.

Aqui me tens...
Ama-me se puderes,
ou então deixa-me ficar
na curva do fim da tarde
onde a morte por vezes passa
e costuma ser branda
para os corações sem dono.

©Graça Costa


terça-feira, 14 de abril de 2015

RECOMEÇAR

Os seus olhos eram oceanos de perda, mágoa e dor.
Cada lágrima trazia consigo
páginas de uma vida de sobressaltos e eternos recomeços.

A pele cheirava a fome
mas apesar da fragância triste
podia nela intuir uma subtil serenidade,
misto de canela e maresia
com um leve toque de saudade.

De quando em vez as comportas do olhar cediam,
incapazes de suportar a dor de feridas esfregadas com sal.
Dor forte,
intensa,
franca,
honesta,
como todas as dores do crescimento,
com a sua musicalidade hesitante
e a sua métrica envolvente,
quase sufocante.

Os seus olhos oceânicos
gritam o fim de uma vida vivida em maré mansa,
reclamam o turbilhão da aurora que nasce no coração da tempestade,
mergulham em busca dos excessos dos sentidos
e da urgência dos beijos adiados.

Os seus olhos de perda, mágoa e dor
procuram-te na vereda dos sonhos,
na certeza que só contigo,
o comum se torna extraordinário
e o viver ganha Luz.


©Graça Costa

                                                            Solitude by Gary Leonard