domingo, 15 de março de 2015

O SORRISO DA SAUDADE

Mordaz a esperança aprisionada
no afluente da dor.
Mordaz o leito subtilda saudade
das coisas que não fiz,
das palavras que não disse
das lagrimas que refreei.

Do encanto dos silêncios partilhados
guardo o sabor
da aurora boreal
ou do anoitecer
em que me vestia de lua
só para te dar prazer.

Mordaz a memória dos sonhos revisitados
das marés por cumprir
dos olhares abandonados
numa paisagem a florir.

Não sei se chore
ou me espante;
não sei o que a alma me diz,
mas guardo a lua num canto
e deixo a saudade...
sorrir.

©Graça Costa




THE WAY YOU LOVED ME


sábado, 14 de março de 2015

OS SONHOS DA MADRUGADA

Embriagada de insónia
enamorei-me da madrugada.

Pedi-lhe uma manhã clara
com raios de sol vibrantes
salpicados de brisa e aroma de mar.

Pedi-lhe o calor do teu corpo
a ternura do teu abraço
o cheiro da tua pele
o precioso som da tua voz.

Enrosquei-me na tua presença ausente
deixei que as lágrimas levassem a saudade
e deixei-me levar …

O sono acabou por vencer a batalha dos sentidos.
Adormeci nos braços da madrugada e neles te revisitei.

Desse dia feito noite,
guardo os sonhos que inventei
e os  ecos de ti que na pele gravei.

Tesouros de alma sem textura
com aroma de infinito. 


©Graça Costa


SLEEPLESS


SE ESTES DEDOS TIVESSEM VOZ

Se estes dedos tivessem voz
seria de vento e de mar,
seria de brisa e de trautear o teu corpo,
com gemidos de mel
e ternura de flores sem tempo nem estação.

Se estes dedos tivessem voz
suplicariam por violinos, harpas,
e lençóis de cetim orvalhados pelo teu perfume.
Suplicariam por pinceis e aguarelas para te pintar o perfil
e nele gravar o sentir do amanhecer nos teus braços.

Se estes dedos tivessem voz
gritariam pela tua presença dentro de mim,
pelo teu olhar preso no meu,
navegante eterno de paraísos inventados
e rotas por descobrir.

Se estes dedos tivessem voz
o amanhã estaria escrito.

O entardecer teria a melodia de uma sinfonia tocada a quatro mãos
e a noite traria consigo a magia dos rios
plena de afectos e desafios,
aberta para nos receber.

Caminhemos então…
e ouçamos,
que os dedos falam a língua dos amantes .


©Graça Costa


MOMENTOS


Há momentos que valem vidas.
Uma lágrima lambendo a pele,
suave e lentamente como uma carícia.

Um sorriso iluminando o olhar como farol no meio da escuridão.

Aquele arrepio da antecipação do prazer,
apenas imaginado, mas ainda não sentido.

Há momentos que valem vidas.

O primeiro olhar,
o primeiro toque da pele,
o primeiro beijo,
o soco no peito da primeira paixão,
 o ar que precisamos desesperadamente beber e nos foge das mãos,
que geladas suam lágrimas de ausência.

A morte eminente do sentido da vida
quando não se está junto,
os minutos que se tornam dias, dolorosos,
quase lume,
quase ferida
aberta pela incerteza da espera,
mas sempre tão forte, tão intensa, tão dramática
como naufrágio em noite de tempestade.

Há momentos que valem vidas
pelo que foram ou não foram
pelo que são
pelo que serão.

Se ficar cicatriz,
ruga,
cabelo branco,
lagrima,
sorriso,
é porque valeu a pena…

Momentos…
tinta  dos dias
com que vamos pintando e escrevendo,
o livro da vida.


©Graça Costa




sexta-feira, 13 de março de 2015

AMANHECER



No amanhecer que desponta
sou pássaro livre
sou fonte
sorriso aberto
espuma do vento.

Sou tudo isso
e o que mais queiras.

Por ti acordo
contigo me deito
desejo na pele
ternura no olhar.

No amanhecer que desponta
navego serena como brisa do mar
e na fluidez dos sentidos
deixo-me enamorar pela maresia na pele,
tal qual os teus dedos
no deleite dos fins de tarde
rumo ao anoitecer
que por ora
apenas é sonho.

A pele ferve num grito surdo.
Antecipação do prazer
numa manhã de primavera


©Graça Costa






IRONIC


quinta-feira, 12 de março de 2015

AQUELES OLHOS

Falavam uma língua estranha aqueles olhos...
ora esmeralda
ora avelã azeitona de Elvas.
Falavam de afectos esquecidos,
memorias adormecidas,
sonhos perdidos nos confins da memória.

Talvez fosse medo...
medo de falar e não serem entendidos,
medo de gritar e serem acorrentados,
medo de sussurrar e ninguém ouvir
e por isso falavam aquela estranha linguagem,

Assumo-a como a língua dos amantes sem tecto,
a dos que ousam ter no peito um coração que bate
ao ritmo da neve numa noite de inverno
e usam as melodias do amor para soletrar
as palavras que aqueles olhos falam
mesmo quando dos lábios só ouvimos,
o embalo do silêncio.


©Graça Costa 


FRAGMENTOS

Trago fragmentos de poesia soltos nos cabelos,
aromas de palavras ditas e por dizer colados na pele,
escorregando subtilmente até aos dedos
na esperança de as deixar voar.

Nem sempre as deixo partir…
Tem dias em que preciso delas só para mim,
como ar,
como água de uma qualquer fonte-mãe,
redentoras,
âncora dos meus medos.

Noutros dias
deixo-as partir,
espalhar as fragrâncias dos afectos partilhados,
envolver-se em bailados de mãos
corpos, olhares e sorrisos,
como brisa em fim de tarde de verão.

Trago fragmentos de poesia soltos nos cabelos.

Querubins de esperança,
sensuais,
doces
felinos  ou infantis…
não interessa…

São meus…até que eu queira
ou de outro alguém
que os saiba acarinhar.
Se um dia esse alguém vier,
talvez os liberte e os  deixe voar.


©Graça Costa