segunda-feira, 9 de março de 2015

MESMO QUE ESTEJA SÓ


Tem dias que me sinto frágil
 como  uma borboleta de asas de vidro.
Alheada, rodopio num efémero esplendor
de luz e fantasia…
como num pas de deux solitário.

Com a brisa como aliada,
trauteio as  notas de um qualquer Noturno
e protejo o estilhaçar das asas
com o aconchego de um amanhecer,
que imagino suave e terno como pele de recém nascido.

Nesses dias,
quando o sal dos olhos teima em percorrer a pele,
invento um casulo,
macio,
com toque de veludo,
cheiro de alfazema,
cor indigo matizada de aurora boreal…
e com estas roupagens
que só eu vejo
que só eu sinto…
ensaio um sorriso e construo a magia de ser feliz
mesmo que esteja só…
no meio da multidão.


©Graça Costa


À BOLINA

Tem dias em que me sinto
Como pena que caiu em folha à bolina.
Doce expectativa…
Qual o caminho ?
Por onde me leva a brisa?
Que aventuras me esperam ?
Que perigos?
Que desafios ?
Tem dias assim…
em que acordo em suspenso
perante o dia que desponta.

Sinto o sol na pele
e tremo.
A brisa no rosto
 e sorrio.
O apelo dos afectos
e suspiro.
A tortura da tua ausência
e sonho.

Como a pena em folha à bolina
entoo ao vento a prece que me leve até ti.

Então, talvez…apenas talvez,
consiga saciar a fome que a noite matou
e a aurora fez renascer.


© Graça Costa





domingo, 8 de março de 2015

TELL ME


ÉPICO

Seda,
cetim,
veludo,
 brocado,
 marfim.

Não sei como dizer a tua pele.

Esse mar onde me perco e me encontro,
onde me invento e descanso.
Essa pele que me fala,
mansa e docemente numa língua por inventar
mas que me entende e responde
com a languidez do olhar.

Não sei como dizer o teu aroma de jardim silvestre,
mar revolto,
terra lavrada,
oriente mágico, quase alucinante.

Não sei…
Mas sinto o épico desta sensação
 de te saborear ,
sem  ter que te dar um nome.


©Graça  Costa


                                                           Helena Wierzbicki Painting,

AMA-ME APENAS

Não me mistifiques.

Não quero ser deusa, nem fada,
prodígio ou coisa inventada.

Vê-me apenas como sou,
a mulher que te ama para além do amor,
aquela que te vigia o sono
e te acompanha o sentir,
aquela com quem partilhas os sonhos
e te alivia as dores das noites insones.

Não me mistifiques amor.
Vive-me como a mulher que sou
de carne e osso,
defeitos e virtudes,
mas vive-me
com a intensidade dolorosa
da incerteza do amanhã.

Faz do meu corpo
a tua terra por lavrar
e morre dentro de mim
no anoitecer
que amanhece
ou no amanhecer que anoitece.

Não me mistifiques...
ama-me,
apenas.

. © Graça Costa

Surajit Chatterjee; Charcoal 2012 Drawing "Love"

sábado, 7 de março de 2015

A VOZ DO CORPO


Tem dias em que sentimos as palavras à flor da pele,
mas elas recusam-se a falar.
Tem dias em que as melodias que me embalam o Ser,
apenas dançam...
recusam cantar.

Nesses dias
deixo o corpo ser voz
o olhar, fantasia
a boca , mel em fatia
surpresa,
melancolia,

e a pele...
ah, a pele torno-a ser pauta de soneto,
escrito no silêncio que rodeia as obras de arte,
construídas a quatro mãos.


©Graça Costa


AURORA BOREAL


Tem dias em que me sinto aurora boreal,
lambendo o teu corpo
por entre o êxtase, o espanto e a magia.

Nesses dias componho melodias improváveis
que gravo na pele e nos sentidos como tatuagens.

Fecho os olhos e sinto as nuances coloridas do amanhecer
acariciando o corpo nu
que em jeito de oferenda te estendo,
como paleta à espera do fluir da magia do pintor.

Mais tarde contemplo a obra
e por vezes…
um esboço de sorriso,
grava-se-me no rosto.


©Graça Costa


THE STRAWBERRY


RETRATO DE UMA PRIMAVERA ANUNCIADA

Olhos de mirtilo,
boca de romã
pele de damasco,
sabor de amora, jasmim, hortelã e canela.

Deleite para os sentidos,
só de olhar
mata sede,
atenua fome,
aguça desejos inconfessáveis.

Imagino-a
com a sua paleta de cores, sorrisos e aromas,
com a sua gaiatice sensual,
chamando por alguém
apenas com o olhar.

No seu dossel de veludo e cetim,
despida dos encantos frutados,
pele serena e marfinada
entra suave e leve no mundo dos sonhos.

Sonhos sonhados, decantados,
filtrados pela miragem
do amor em construção.

Com ela guarda os segredos da pele
que fala a língua dos amanhã sem hora marcada.
Linguagem subtil...
com um toque de canela.


©Graça Costa



sexta-feira, 6 de março de 2015

ACONTECEU

Aconteceu porque tinha que acontecer…
Eu ser água e tu seres mar.
Eu ser fogo tu seres ar.
Eu ser terra e tu semente.

Aconteceu porque tinha que acontecer…
Ser farol em alto mar
e tu seres naufrago na maré,
lutando por uma mão estendida por entre as ondas .

Aconteceu porque tinha que acontecer…
recolher-te no meu abraço
quando não sabia o sabor de um abraço,
aquecer-te com o meu fogo
quando não sabia o que era ser fogo,
soltar a loucura
em brando trinado,
sentir a fome na tua boca
e o apelo do brilho dos teus olhos.

Aconteceu porque tinha que acontecer …
Ser feliz sem o saber,
sentir-me anjo, demónio e maresia,
e na mentira dos dias
ter como única certeza,
a certeza de te ter.

©Graça Costa