terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DANÇA LENTA


Apetece-me dançar.
Uma dança lenta como o amor em dias de paz.
Uma dança terna como violetas ondulando na maré verde da planície.
Uma dança suave como beijo que emerge das profundezas do ser.
Uma dança quente como o olhar cúmplice dos amantes.

Apetece-me ser tua.
Entregar-me à voragem da fome que queima por dentro,
que humedece os lábios, seca a garganta e incendeia o olhar.

Apetece-me viver,
com a intensidade de quem sabe que o amanhã pode não chegar,
mas com a calma de quem saboreia cada olhar, cada toque, cada beijo
como se de obras de arte se tratassem.

Apetece-me dançar.
Soltar as rédeas da imaginação,
libertar as amarras do sentir
olhar a nudez e sorrir.
Descobri que só nua de mim
me encontro verdadeiramente comigo e me descubro.

Talvez insegura,
talvez amedrontada
talvez ousada,
talvez inquieta, curiosa,
ou até mesmo vaidosa,
mas seguramente mais inteira.

Visceralmente… Eu.

Apetece-me dançar.
E vou…


©Graça Costa


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

ESCREVO-TE


Escrevo-te
porque as palavras não chegam para o que sinto…
são pequenas e banais
gastas,
supérfluas ,
incoerentes, frugais
e eu preciso delas fortes,
intensas, enormes,
eruptivas,
terapêuticas,
balsâmicas.

Escrevo-te porque as palavras que tenho para ti não têm nome.
trago-as embaladas  no peito,
presas  na garganta, 
gravadas na pele,
como gotas de suor após a tenaz luta do amor.

Escrevo-te com a alma nas mãos
esperando que me estendas as tuas.
Que me agarres ,
que me envolvas,
que me penetres os sentidos
com a emoção da aurora rompendo o dia.


Escrevo-te,
porque os meus olhos estão mudos
e a boca  grita silêncios vários,
Só estas mãos insistem em riscar o papel
na implacável dança de aromas e sons com que construo os dias.

Escrevo-te para que me recordes assim.
despida de tudo
despida de mim.
barro nas tuas mãos,
mosto por fermentar .


©Graça Costa


QUEM ?


 Quem me roubou o sonho?
O sonho que só de ser sonhado já era vida.
Aquele que me envolvia nos dias frios de inverno
e me saciava a sede no verão.

Quem me roubou o sonho que sonhei,
delicado como teia de aranha coberta de orvalho,
sonhado nas noites em que acordada te contemplava o dormir ?

Quem me roubou a melodia de embalo,
aquela, cujo primeiro compasso
era viagem, magia, sorriso, rendição?

Quem me roubou o sorriso,
o brilho do olhar,
quando humedecia os lábios
num prenuncio de beijo,
que só de sonhado já era fusão de pele ?

Não sei quem foi o ladrão furtivo…
mas sei que foi em vão.

Agarro nestas mãos, no tempo e no querer
e o sonho sonhado, em vão roubado,
vai renascer com o esplendor
 de um fim de tarde à beira mar.


©Graça Costa


domingo, 8 de fevereiro de 2015

A VOZ DO CORPO


Tem dias em que sentimos as palavras à flor da pele,
mas elas recusam-se a falar.
Tem dias em que as melodias que me embalam dos dias,
apenas dançam...
recusam cantar.

Nesses dias
deixo o corpo ser voz,
o olhar, fantasia,
a boca , mel em fatia,
surpresa,
melancolia,

e a pele...
ah,
aí então a pele, torno-a ser pauta de soneto,
escrito no silêncio que rodeia criação,
de obras de arte
construídas a quatro mãos.


©Graça Costa


AMANHÃ



No amanhã que começa a nascer
quero que saibas que a alfazema do jardim
vibra de aromas e tons de maresia,

que a lua sorri aos amantes sem tecto
e lhes estende os braços dando-lhes uma cama de afectos,

que os olhos brilham
ansiosos pelos sonhos ainda por sonhar
e que a vida rola
como carrossel de risos e lamentos
abraços e tormentos,
tecendo a rede
dos dias calmos
e dos dias das tormentas.

Quando o amanhã surgir no horizonte
talvez esteja nos braços do sono
ou dentro de um sonho com cheiro de alfazema
e tons de jasmim.

Se assim for, estarei sorrindo
porque os braços da lua entenderam-se para mim
e tu andas por perto.


©Graça Costa




SLOW DANCE


RENASCER NO OUTONO

Trazia pendurada nos dedos
a primavera dos seus verdes anos.

No olhar,
 tímidos raios de sol animados pela sonho de uma paixão de verão.

No sorriso,
promessas de beijos doces,
macios como veludo,
carnudos como alperces maduros polvilhados de canela acabada de moer.

Aquele excesso de primavera anunciada,
quase overdose sensitiva e visual,
inundou ruas e rostos,
espalhou sorrisos
e também alguns lamentos sussurrados,
por quem tinha visto os anos passar ao largo,
sem ter tido tempo, engenho ou a sorte
de poder beber o amor e a paixão da vida,
em tragos longos de mel e açúcar mascavado.

Naquela primavera de verdes anos pendurada nos dedos
vi a miúda que fui…
e revi a  promessa de mulher que não cheguei a ser…
mas sorri…

Sorri porque agora,
no Outono da vida,
retirei o esboço do que fui da gaveta das memórias,
agarrei na paleta das cores e nos pinceis com que se pintam os dias;
e juntando o esplendor das rugas, com as pinceladas de branco nos cabelos
fiz o adubo de uma nova sementeira.

Ah…
e continuo a sorrir…             

©Graça Costa






O BEIJO



No dedilhar do piano
imaginei o beijo,
doce,
carnudo,
sumarento
como amora madura
degustada à beira do mar.

Fechei os olhos
e no embalo das notas
o beijo ganhou forma…
límpida e cristalina como gota de orvalho
no despontar do amanhecer.

Com o beijo nasceu o sorriso,
e com o sorriso o abraço
e com o abraço o enlaço.

Sereno e algo travesso estampou-se no rosto
com a inocência
de uma primeira vez.


©Graça Costa



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ACROSS THE MIST


From across the mist 
 I drink your profile,
serene and mild as autumn breeze,
warm and soft as sleepy sun
careless,
mischievous,
escaping on the horizon.
From across the mist 
I drink your profile
and in my drunkness of you
I dream...


©Graça Costa



NAS TUAS MÃOS



Por entre a neblina bebo o teu perfil
sereno e brando como brisa de outono,
quente e suave como sol a caminho de adormecer.

Imagino a minha pele cantar sob o teu toque
e quase consigo sentir o sabor da tua boca
fogueira e fonte,
medronho e água mel,
arrepio e gargalhada.

Nas tuas mãos sou barro
acabado de arrancar às entranhas da terra,
mosto aquecido,
vulcão adormecido,
desejo em convulsão.

Chamo-te só o brilho do olhar.
O vento entende o meu sorriso
e leva o teu nome até aos confins do ser.

Aguardo…
e a espera é doce.

©Graça Costa